Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

O comunista

Siro Darlan*

O Papa Francisco conversava com jovens quando um deles perguntou se o Papa era comunista. Rindo muito, o Papa confirmou ser comunista como deveriam ser os primeiros cristãos que compartilhavam tudo o que tinham sem apegos materiais. Essa cena me inspirou a escrita de um artigo publicado no Jornal do Brasil sob o título "O Papa é comunista e eu também". Na época o artigo não causou tantos comentários, mas nesses últimos dias os comentários bombaram no meu blog, a maioria deles muito raivosos condenando essa ironia.

Alguns mencionaram e transcreveram todas as Encíclicas da Igreja condenando o comunismo e muitos me excomungaram. Outros, menos tolerantes, me condenaram a arder no fogo do inferno. Ora desde que eu esteja acompanhado do Papa Francisco irei feliz para qualquer lugar na certeza de que estarei muito bem acompanhado. Não é sem motivos que se especula o perigo que corre Sua Santidade por sua coerência cristã. Muitos são os que estão descontentes com sua palavra coerente com a Sagrada Escritura de desapego aos bens materiais, com seu exemplo de humildade e serviço. Houve até aqueles que indagaram se não tinha medo de um atentado e a ameaça era a de que "vigaristas como você também morrem sem saber".

A Igreja que serve é a Igreja de Cristo e não aquela que condena. A Igreja que acolhe é misericordiosa e não excludente e rica em adornos. Evidente que a Igreja em seus primórdios foi uma Igreja mais fraterna e solidária. Os cristãos perseguidos e martirizados eram comunistas na divisão de tudo que partilhavam entre si e por isso sobreviveram e sedimentara uma Igreja para sempre. O egoísmo e a ignorância da violência contra os semelhantes têm seus dias marcados e perece com seus autores. Os cristãos eram conhecidos pelo partir do pão, ato transformado em sacramento da Eucaristia, para lembrar para sempre a obrigação de partilhar e ter os valores em comum.

Também foi num julgamento que a turba revoltada e insana pediu a condenação de um Inocente. Talvez seja essa a razão de muitos Tribunais terem retirado a imagem do Cristo de seus recintos, para que possam ser realizadas "tenebrosas transações" sem o testemunho do Crucificado. A história se repete e modernamente aqueles que antes gritavam crucifica-O, crucifica-O continuam, mesmo sem conhecer a acusação, nem o que consta dos autos do processo esbravejando "prende, prende"; "são bandidos e baderneiros". O raciocínio e a racionalidade de uma turba raivosa é perigosa porque não tem limites. Constituição pra que? Devido processo legal, pra que? Vale o que diz o jornal que serve o interesse daqueles que lhes pagam.

Nunca é demais lembrar que onze jovens manifestantes da Palavra partiram da Palestina para divulgar a boa nova e foram perseguidos, presos, humilhados e martirizados por semearem o Amor entre os gentios. Essa mensagem foi taxada de subversiva, terrorista, infiel, mas sua semente brotou e modificou muitos corações endurecidos e violentos.

Quero tranquilizar as vivas dessa turba inflamada que mesmo sendo comunista, jamais comi, nem comerei criancinhas. Apenas continuarei aplicando o direito com toda fundamentação legal e sem me deixar pautar pelas injunções que desejam impor-se às leis com pressões indevidas sobre os julgadores. Assim como Salomão nada peço para mim e muito menos a morte de meus inimigos, apenas que Deus me dê discernimento e um coração sábio e inteligente para praticar a Justiça.

* Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Coordenador Rio da Associação Juízes para a Democracia

Tags: aberta, coluna, darlan, siro, Sociedade

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