Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Os ataques de Israel, o papel dos Estados Unidos e a reação brasileira

Ricardo Luigi*

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, foi pego nos bastidores de uma entrevista ao canal americano Fox News irritado com a ofensiva israelense sobre Gaza. Falou algo como “que droga de precisão” para se referir ao grande número de civis palestinos mortos nas investidas israelenses. Depois, confrontado ao vivo, desconversou.

Os Estados Unidos podem não ser os responsáveis pela escalada da violência no Oriente Médio, mas não utilizam seu poder moderador para contê-la. Em consonância ao seu papel de principal potência mundial, os americanos deveriam ajudar a conter o ataque desproporcional de Israel. Como os maiores aliados israelianos, agem contrariamente.

Na sessão especial do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre os Territórios Palestinos Ocupados, destinada a decidir a criação de uma comissão para investigar as ações de Israel, somente os Estados Unidos votaram contra. Dentre as 17 abstenções notabilizam-se as nações da União Europeia e Coreia do Sul. O Brasil foi um dos 29 países que votaram a favor.

Desde que começou essa última etapa dos conflitos entre Israel e Palestina, o Brasil, por intermédio do Itamaraty, emitiu duas notas. A primeira, nota 159, rechaçava o aumento da violência de Israel, mas condenava igualmente os mísseis palestinos. A segunda, nota 168, pedia um cessar-fogo de ambas as partes, explicava a posição brasileira na ONU e findava apontando a chamada para consultas ao embaixador brasileiro em Tel Aviv.

A postura brasileira foi seguida de severas críticas do Ministério das Relações Exteriores israelense, por meio de seu porta-voz Yigal Palmor, que disse que a decisão do Brasil de chamar seu embaixador para consulta é uma demonstração de que o Brasil, gigante cultural e econômico, permaneceria um "anão diplomático". Depois, concluiu que desproporcional é 7x1, fazendo menção à derrota brasileira para a Alemanha na Copa do Mundo.

A diplomacia brasileira não é irrelevante, como deveriam saber os representantes israelenses. São inúmeros os exemplos que atestam isso, e o mais importante deles, no caso em questão, diz respeito à Constituição do Estado de Israel. Osvaldo Aranha presidiu a cerimônia da ONU, em 1947, na qual foi aprovada a divisão da Palestina entre árabes e judeus. Depois disso, Brasil e Israel sempre tiveram excelentes relações diplomáticas.

Foram precisas as palavras de nosso chanceler, Luiz Alberto Figueiredo Machado: “Somos um dos 11 países do mundo que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU e temos um histórico de cooperação e de ação pela paz internacional. Se há algum anão diplomático, o Brasil não é um deles”. Sobre a menção ao futebol, o nosso representante preferiu não responder.

Se o Brasil realmente fosse um “anão diplomático”, o extremista ministro israelense das Relações Exteriores Avigdor Lieberman não perderia seu tempo conosco, em meio a assuntos tão mais graves que eles têm para lidar. No futebol, o Brasil perdeu de 7x1, mas, se há feridas, são apenas simbólicas. No jogo da vida, a Palestina perde de 813 x 34 para Israel. Há ainda 5.237 feridos e cerca de 60 mil refugiados. E o nmero tende a aumentar.

P.S.: Comove a carta publicada no dia 18 de julho no The Guardian, assinada por alguns ganhadores do Nobel da Paz e personalidades diversas. Nela, cita-se o vínculo bélico entre os israelenses e o resto do mundo por conta do comércio de armas, e conclama-se que a ONU e os países do mundo tomem medidas para impedir os ataques desproporcionais de Israel.

P.S.2: Cabe louvar a atitude do comitê do candidato à Presidência Aécio Neves, que não se deixou levar por uma possível polarização eleitoral, e foi favorável à posição do Itamaraty.

*  Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor universitário e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais. - ricardoluigi@cenegri.org.br

Tags: aberta, coluna, luigi, ricardo, Sociedade

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