Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Adeus, Mestre Ubaldo

Siro Darlan *

A derrota de 7 a 1 para Alemanha, nem a lanterna que o Flamengo está amargurando me deixaram tão triste quanto à perda do iluminado escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. O Leblon, meu bairro de coração e a sempre alegre Itaparica amanheceram muito tristes com essa perda tão lamentável. Quem iluminará minhas manhãs de domingo com suas crônicas inteligentes e irônicas? Acabo de ler seu hilário último artigo “O correto uso do papel higiênico” onde faz ironias com a mania de proibições do poder público brasileiro sempre comparável com a imortal Sucupira, governada por Odorico Paraguaçu.

Em sua fina ironia o Mestre dá uma escorregada quando critica a Lei Menino Bernardo, que ele chama de lei da palmada, mas reconhece que sua descrição é exagerada. Certamente a menção é apenas para compor suas bem lançadas criticas a mania de proibicionismo porque com relação à violência contra criança sabia o escritor querido que é preciso combater essa covardia que as estatísticas apontam de tanta violência perpetrada contra crianças no seio das famílias que devem protegê-las. Evidentemente, como reconheceu Ubaldo, a lei não prevê qualquer sanção aos pais violentos mas dentro de usa característica pedagógica fazer com que troquem o chinelo no bumbum e os beliscões pela palavra, terreno que o João dominava como ninguém.

“Vamos botar de lado os entretantos e partir para os finalmente”. Nessa terra que ele deixou triste e chorosa está difícil continuar manifestando o pensamento como ele fez durante toda sua vida. Hoje quase nada se pode fazer porque tem sempre uma lei constrangendo o cidadão. Abre-se mão do processo educativo em troca de um regime repressivo que, como conclui em seu último artigo falta pouco para que sejam baixadas normas para os relacionamentos sexuais. Bem normas pode não haver, mas comportamentos sociais abomináveis são noticiados todo dia. Na Ipanema de tantas transgressões duas jovens foram espancadas porque se beijaram publicamente. O beijo sinônimo de afeto que também já sinalizou traição agora também é motivo de linchamentos.

Manifestações públicas, meu caro Ubaldo, você que viveu como eu esse tormento de uma ditadura militar também está proibida. Naquele tempo, se insistíamos éramos espancados e alguns torturados e muitos desapareceram. Agora é mais sofisticado você é taxado de anarquista, vândalo e sua palavra é cassada por mandados de prisão. Você deixa de ser um cidadão no exercício de seu direito constitucional à livre manifestação do pensamento, e como não podem prender o pensamento, que “parece um coisa atoa, mas como é que agente voa quando começa a pensar”, prendem o “terrorista” que ousou divergir da ordem pública e social.

Até mesmo da tribuna que você usava para lecionar aos seus fiéis leitores se transformou em suporte para essas correntes que tentam acorrentar o pensamento, mas você, sempre brilhante sabia driblar muito melhor que nossos jogadores que amarelaram diante do manto sagrado vermelho e preto que os alemães vestiram para amedrontar nossos sensíveis atletas, e escrevia o que sua consciência de grande brasileiro ditava.

Esquecem alguns profissionais da mídia que assim como canta o poeta Eduardo Gomes da Costa no caminho com Maiakóvski, depois de calarem os manifestantes, calarão os profissionais da mídia, depois seremos nós os juízes, se já estivermos sendo os primeiros da lista, logo os professores já calados há muito tempo com seus parcos salários e péssimas condições de trabalho, “até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”.

* desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Coordenador-Rio da Associação Juízes para a Democracia

Tags: Artigo, darlan, JB, siro, ubaldo

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