Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O legado veio pela dor

Marcos Espínola*

A derrota da Seleção da forma como ocorreu despertou revolta, vergonha, raiva etc. No entanto, no meio desse turbilhão de sentimentos, o mais necessário é o da reflexão de todo o contexto. Dessa forma, será possível e até fácil perceber pontos inquestionáveis que contribuíram para levar o Brasil ao maior vexame da história das Copas. Falta de planejamento e seriedade é um deles, proveniente do modelo de gestão arcaico, cujo poder e dinheiro vêm na frente. É assim no mais alto escalão do poder público, e o efeito é cascata. A CBF, por exemplo, é dirigida há anos por um mesmo grupo, pouco se renova e se viu envolvida em polêmicas, assim como a própria Fifa. Deveria agir em prol da melhoria do futebol nacional, mas pouco faz, aparentemente mais preocupada com as cifras.  

A falta de determinação e apoio aos clubes para que estes invistam nas categorias de base, por exemplo, está fazendo com que o Brasil, reconhecido como fábrica de craques, perca gradativamente essa capacidade. E aqueles que despontam, logo cedo, em muitos casos ainda menores de idade, rapidamente são negociados para clubes do exterior. Por quê? Dinheiro, sempre ele.

Mesmo com essa realidade, tivemos sete anos para preparação de uma equipe competitiva e de alto nível, equiparada aos adversários tradicionais. Obviamente, tudo isso seria possível se fosse devidamente planejado e levado a sério. A Alemanha, nosso algoz do momento, mantém certas regras para seus clubes em relação às categorias de base. Medidas que visam à melhoria constante do futebol naquele país, considerando o retorno em médio e longo prazo. E não é à toa que nas últimas quatro copas, os alemães chegaram às semifinais.

Por aqui, a história é outra. A filosofia é a do imediatismo. Os comandantes do futebol interagem com as autoridades e, para esta Copa, se preocuparam prioritariamente com as construções de estádios, alguns com sérias possibilidades de virarem “elefantes brancos”. Com a derrota, quase todos estão temerosos com os efeitos da goleada vergonhosa no pleito que se aproxima. No fundo, sabem que os prejuízos podem ser avassaladores, principalmente se o povo brasileiro agir nas urnas como a seleção alemã, fria, objetiva e racional.

O destino tratou de providenciar uma segunda tragédia, talvez ainda pior do que a de 1950, mas que servirá para identificarmos na dor o verdadeiro legado da Copa, que é a consciência de que é preciso mudanças urgentes.

 * Marcos Espínola é advogado criminalista.

Tags: aberta, coluna, espínola, marcos, Sociedade

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