Jornal do Brasil

Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Estamos mesmo falando de futebol?

Breno Rosostolato*

O goleiro do Brasil da Copa de 50, Barbosa, que foi excomungado e execrado pela derrota da Seleção Canarinho naquilo que foi chamado de Maracanaço, ficaria muito envergonhado com a apresentação da Seleção da CBF naquilo que em 2014 vai ficar conhecido como Mineiraço. Barbosa foi injustiçado, já Luis Felipe Scolari, esse, sim, tem muita culpa pelo desastre na derrota do time brasileiro nesta fatídica terça, dia 8 de julho.

O time de Felipão perdeu de 7X1 da Alemanha, e vamos a alguns fatos. A Alemanha venceu, e parabéns pelo espetáculo — venceu com propriedade, foi merecedora. O time brasileiro mostrou, não apático mas morto, o retrato da mentira que tentaram defender no início da competição. A mentira é que talvez Felipão tenha convocado direito o melhor planejamento, que não foi teimoso ou presunçoso, quando dizia e afirmava com veemência que seríamos campeões a todo custo.

Só para lembrar, o treinador deu uma declaração, com toda sua soberba, ao final do jogo contra o Chile: "Gostou, gostou. Se não gostou, vá para o inferno". Concordo com o jornalista Mauro César em seu blog, quando ele afirma que o hexa do Brasil foi mandado para o inferno mesmo, e a Alemanha exorcizou o futebol brasileiro.

O Brasil teve um apagão em campo da mesma maneira que a população brasileira sofreu um apagão mental porque tivemos que engolir goela abaixo a Copa do Mundo. E aí, não tenho como não mencionar a bandalheira que foi com o dinheiro público, a corrupção. E me desculpem a repetição desta conversa política, mas ganhar a Copa a todo custo, ideia que foi incutida na mente do brasileiro, era uma forma de compensar o roubo que foi esse evento.

Confundiram o nacionalismo, o patriotismo, com fanatismo para desviarem de fato aquilo de que mais nós devemos nos envergonhar. E não é aos 7X1 que estou me referindo. O pensamento de Brasil, ame ou deixe-o era a ideia rebuscada e agressiva da ditadura. Acontece que fomos obrigados a sermos patriotas de qualquer maneira. De preferência calados, sem questionar, unidos por um único propósito, torcer pelo país e odiar aqueles que criticavam a Copa ou a Seleção.

Torcemos pelo Brasil porque acreditamos nesta nação, e não devemos esquecer que existe muita podridão, que foi esquecida durante esses dias de Copa e que sabemos que existe. Mas a política do pão e vinho sempre foi muito eficaz, não é mesmo?

Quando critiquei a Seleção Brasileira, fui chamado de antipatriota, como se eu não pudesse ter uma opinião contrária às pessoas. Mas eu não estava sendo julgado por um brasileiro, mas uma pessoa vítima do patriotismo doentio. Cante o hino à capela e mostre que você é grande. Vá para a guerra e lute com o seu inimigo. Guerra era uma palavra comumente usada por Felipão, mas que não tem nada a ver com esporte. Os adversários do Brasil não são inimigos. Guerra combina com as arenas dos gladiadores e não com os estádios de futebol.

Inimigo da nação de chuteiras, infelizmente, foi o que se atribuiu ao jogador da Colômbia, Zúñiga. Muitos brasileiro medíocres chamaram Zúñiga de “macaco” e “preto safado”. Ataques criminosos que foram direcionados para a filha e para a mãe do jogador, e pasmem, houve até ameaças de estupro à menina. Zúñiga não acordou no dia do jogo planejando quebrar a coluna de alguém. Acreditar que foi proposital é uma atrofia mental. O time se apequenou quando dependeu exclusivamente de Neymar.

Mas aí voltamos ao jogo e os 7X1. E talvez este seja o verdadeiro legado desta Copa.

Acordamos com um baita tapa na cara. Tapa que vai doer muito, vai machucar, sim, e vai sangrar muito.  Cicatrizes ficarão expostas e de recuperação gradativa.

Agora é o seguinte, vamos saber perder. Nada de brigas, linchamentos e culpar um ou outro. Nada de queimar bandeiras porque somos brasileiros, ou só por causa de um jogo deixamos de ser? Ninguém é antipatriota. Ninguém aqui é dono de verdade nenhuma, e não venha com lições de moral. A Copa continua, e os problemas deste país também. Vamos lutar pra que este país cresça, porque hoje foi apenas um jogo de futebol.

Ahhh, um detalhe importante. Iniciei este artigo diferenciando a Seleção Canarinho, que em 50 era administrada pela CBD e que depois, em 1979, tornou-se a CBF. Entidade envolvida em inúmeras denúncias de corrupção. Uma corja de parasitas que aos poucos está acabando com o futebol brasileiro. A Seleção Brasileira não pertence ao país, pertence à CBF.

Mas aí, estou aqui me perguntando: será que até agora estamos mesmo falando de futebol, ou existem outras coisas envolvidas?

 

*Breno Rosostolato, psicólogo, é professor da Faculdade Santa Marcelina.

Tags: aberta, breno, coluna, rosostolato, Sociedade

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