Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

São José de Anchieta, padroeiro do circo e do teatro

Wander Lourenço*

Com a canonização do jesuíta José de Anchieta propagado pela Madre Igreja Católica, os artistas brasileiros de circo e teatro já podem recorrer a um santo caseiro para rogar aos Céus nos momentos de necessidade e comemorar em procissão ou prece a glória obtida em seus espetáculos de picadeiro e instalações cênicas. Sugiro até que, no Brasil, em sua data seja comemorado o dia do trabalhador de teatro e do circo... 

O jesuíta José de Anchieta foi o primeiro dramaturgo de prestígio a lidar com a língua portuguesa e outros idiomas, como o latim, o tupi-guarani e o castelhano, no período do Brasil Colônia. Por recomendação do padre Manuel da Nóbrega, seu superior hierárquico da Companhia de Jesus, Anchieta escreveu inúmeras peças teatrais, cujos enredos abarcavam temáticas religiosas com o intuito de evangelização de uma plateia composta por selvagens ameríndios, degredados e aventureiros, que adentravam o território com o objetivo de “Fazer a América”.  Por esta razão, detectamos em seus registros dramatúrgicos a tal Babel idiomática a abordar os principais problemas sociais de sua época: os rituais antropófagos, a poligamia e o uso excessivo do cauim.  

Com engenho e maestria, José de Anchieta, que era literalmente um homem de ação, procurou adaptar por intermédio dos autos de cunho religioso e moral que compusera a dogmática e exemplar biografia dos santos católicos, em diálogo com as prédicas cotidianas dos bárbaros habitantes deste Éden brasilis. Em detrimento de uma estética mais apurada, é verdade que sobressai o caráter didático e modelar condizente com a composição dos autos anchietanos. Porém, cabe explicitar que algumas estratégias dramatúrgicas concebidas por Anchieta serão dignas de uma habilidade atávica a conjugar elementos de inserção étnica de imenso valor criativo, em se tratando de escritura ficcional. 

É fato que não se pode perder de vista a figura de retórica utilizada em um de seus discursos cênicos, cujas menções devem ser consideradas como uma extrema perspicácia autoral, porque se constroem as personagens de acordo com o contexto adaptado ao ponto de vista do invasor doutrinário. Por exemplo, quando o dramaturgo espanhol se propunha convencer o público espectador que as tais mazelas sociais leia-se: canibalismo, cauim e poligamia , eram maléficas e perniciosas aos cristãos evangelizados por Anchieta. Destarte, o hábil escritor transportava as ilicitudes humanas consideradas pela Igreja aos inimigos guerreiros das tribos, contra as quais pelejavam os seus súditos artísticos. 

Nesta magistral estratégia argumentativa, aos silvícolas seguidores dos preceitos que se opunham ao projeto de civilização arquitetado sob a égide dos padres jesuítas eram atribuídas as práticas dionisíacas, poligâmicas e antropofágicas. Nas encenações do altar-mor ou do largo das capelas, inclusive, se observa que, à configuração do Demo, se nomeava o cacique rival para maior efeito de ilustração da maldade. Se imaginarmos que José de Anchieta produziu a sua obra de dramaturgia à luz do Barroco, compreende-se que as concepções antitéticas que afloram no âmago de suas peças são pertencentes ao caráter dicotômico do movimento estético europeu. 

Entretanto, o mais interessante foi que o teatro colonial que se inaugura na mais próspera colônia portuguesa se deu como substituição da oratória dos púlpitos e, sobretudo, da corrente e do açoite que, através dos castigos físicos, se tornaram ineficazes como método de imposição dos padrões civilizatórios engendrados pelos colonizadores lusitanos. Desta feita, por recomendação dos jesuítas que o canonizaram, as ameaças dos sermões e as cicatrizes oriundas do vergalho do feitor deveriam ser concentradas na pena do dramaturgo São José de Anchieta, de modo a capturar a plateia seiscentista pelo que pode vir a ser mais sagrado ao ser humano: a escravização por seu imaginário ou inconsciente coletivo, amputando a possibilidade de reação ou questionamento, sob a acusação de não estar apto a alcançar o reino dos Céus.    

Qualquer analogia por imagem e semelhança aos tempos atuais não é mera coincidência... Amém.  

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa).-  wanderlourenco@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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