Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Preconceito é ignorância

Siro Darlan*

Perdemos o nosso melhor e principal jogador em plena Copa do Mundo. A lesão do Neymar deixou-nos tristes e apreensivos. O futebol é um esporte de choques e lesões, e, sendo o craque da Seleção, é previsível que seja muito visado e até cassado em campo. O mesmo acontece com outros ídolos como Messi, Robben, Muller, e outros que se destacaram na Copa. A Fifa promoveu uma campanha de combate ao racismo e todas as outras formas de preconceitos. Uma campanha meritória e educativa, sobretudo tendo em vista os últimos acontecimentos quando atletas negros têm sofrido agressões e violências inadmissíveis. 

Ocorre que o atleta colombiano Zuñiga que tirou Neymar da competição, assim como o próprio Neymar, é negro. E foi o que bastou para que os ignorantes de sempre tirassem suas máscaras nas redes sociais com frases como: Aquele macaco daquele jogador colombiano merece sofrer pro resto da vida dele; Tudo um bando de macacos, esses jogadores da Colômbia"; “Espero que esse macaco da Colômbia sofra uma punição”; “Copa sem Neymar. Raiva desse macaco da Colômbia”. 

Nossa Seleção conta como as seleções de outros países, inclusive a Alemanha, com representantes de todos os povos que compõem a única raça que existe, os humanos que habitamos este planeta. Qualquer tipo de ofensa em razão da cor da pele, da religião, da opção sexual, além de ser crime, é abominável e deve ser extirpado de nosso convívio. A campanha promovida pela Fifa deve ser replicada sempre e em todos os ambientes, inclusive e principalmente nas escolas e universidades. 

É bom lembrar que teve repercussão mundial a resposta inteligente dada pelo nosso lateral Daniel Alves, que, ao ser atingido por bananas na Espanha, comeu-as, como se digere um ato de preconceito, que não deve ser minimizado mas mostrado ao agente que ele com esse ato se reduz a uma categoria de humanos não evoluídos, aquela que falta com o respeito aos demais. Todo jogador de futebol está sujeito a lesões, uma intencionais, outras não. Faz parte do jogo. Certamente que a entrada por trás do Zuñiga mereceria punição segundo as regras desportivas, mas daí a agredi-lo em razão de sua cor é não ter o espírito esportivo e valorizar uma lesão esportiva mais que a outra. Ora, se uma mordida levou Suarez precocemente para casa, nossa vitória com os gols de Thiago Silva e David Luiz também mandaram os colombianos para casa.

*Siro Darlan Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, é membro da Associação Juízes para a democracia. - sdarlan@tjrj.jus.br

Tags: aberta, coluna, darlan, siro, Sociedade

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