Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Agosto de 2014

País - Sociedade Aberta

A estabilidade da economia brasileira está ameaçada?

José Matias-Pereira*

A divulgação de indicadores negativos sobre o baixo desempenho e desajustes na economia brasileira voltou às manchetes diárias dos veículos de comunicação, sobressaltando os agentes econômicos e os cidadãos comuns.  Assim, decorridas duas décadas após o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, a população brasileira volta a se inquietar, diante dos sinais de desajustes na economia, traduzidos num preocupante desequilíbrio das contas públicas e na elevação da inflação. Esse fenômeno que ocorre, por uma estranha coincidência, ou talvez por ironia do destino no mês em que o planeta acompanha o desfecho da Copa mundial de futebol no Brasil, disputado em 12 novos e dispendiosos estádios de futebol, monumentos ao desperdício de recursos públicos. Recorde-se que o Plano Real tornou possível a estabilização da economia, a recuperação da moeda, o controle da inflação, que por decorrência propiciou a proteção do poder de compra, acesso ao crédito, aumento da oferta de emprego, entre outras mudanças. É sobre essas questões que trataremos a seguir.  

Em que pese uma boa parcela dos analistas econômicos e empresários alertar sobre os riscos da adoção de políticas fiscal e monetária inapropriadas, baseadas no pressuposto de que é possível alcançar uma inflação estável com crescimento autossustentável, o governo se recusa a rever o seu modelo econômico. Esse cenário é agravado pelos custos para a sociedade da má gestão pública, desperdícios e corrupção, que impactam negativamente no índice de desenvolvimento humano (IDH) do país. Isso explica, em grande parte, por que o Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking das maiores economias do mundo, com um PIB estimado de US$ 2,215 trilhões em 2014, enquanto o seu PIB per capita encontra-se na 54ª posição.

As projeções sobre o crescimento anual médio do país no governo Dilma Rousseff deverão situar-se em 1,8%, levando em conta que em 2013 o crescimento foi de 2,5% e que o PIB em 2014 terá uma expansão próxima de 1%. A inflação anual média no período de 2011 a 2014 será de 6,2%, mas se encontra preocupantemente acomodada no teto da meta, que é de 6,5%. A taxa de juros Selic situa-se em 11% ao ano, sem tendência de baixa. Esses indicadores da economia mostram que ela está crescendo abaixo de seu potencial, combinando inflação elevada e persistente, e um crescimento econômico baixo. É o que se denomina em economia de processo de "estagflação".

É sabido que a falta de ações efetivas do governo e do setor privado para aumentar a produtividade do país é o principal entrave para a geração de um novo ciclo de crescimento da economia brasileira.  Destacam-se entre os fatores, o baixo nível de inovação, a escassez de recursos humanos qualificados, deficiências de infraestrutura, baixo nível de investimento, e um ambiente institucional subdesenvolvido. A queda do investimento, sob a ótica da demanda, revela o fracasso da mudança de política econômica, notadamente com a adoção da Nova Matriz Econômica, que visava, entre outros objetivos, recuperar a indústria e aumentar a taxa de investimento.

Os indicadores do desempenho da economia brasileira comprovam que o modelo econômico executado pelos governos Lula e Dilma, apoiado, em especial, no consumo, se esgotou. Registre-se que somente para as instituições financeiras as famílias brasileiras estão devendo R$1,3 trilhão, o que corresponde a 1/4 do Produto Interno Bruto (PIB) do país (BCB, junho 2014). Estima-se que de cada R$10 da renda das famílias, cerca de R$ 4,5 dessa renda já estão comprometidos para pagar dívidas.

As crescentes reivindicações da população por mudanças na economia e na gestão pública, conforme revelam as pesquisas eleitorais, confirmam o entendimento de que economia e política interagem de forma permanente. Apoiado na análise dos indicadores econômicos é possível afirmar que a estabilidade da economia encontra-se ameaçada, motivada pela leniência do governo com a política fiscal e pelos riscos de descontrole da inflação. 

*José Matias-Pereira, economista e advogado, é doutor em ciência política (área de governo e administração pública) pela Universidade Complutense de Madri, Espanha, além de professor de administração pública e pesquisador associado do programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade de Brasília. 

Tags: aberta, coluna, josé, matias, Sociedade

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