Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Dezembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Inovação tecnológica 

Wanda Camargo*

O pesquisador suíço Jean Piaget afirmou que “o principal objetivo da educação é criar indivíduos capazes de fazer coisas novas, e não apenas repetir o que outras gerações fizeram”. Essa afirmação ganha maior importância em nossos tempos de inovação tecnológica acelerada, em que não há como imaginar a educação sem o uso de tablets, smartphones e equipamentos que os sucederão. Cada vez mais o ambiente educacional se integra instantaneamente em um universo de informações, parecendo que, enfim, o aluno será o construtor de seu próprio conhecimento.

Nessa realidade, em aparente paradoxo, assomam como indispensáveis a escola e o professor, até mesmo como moderadores do fluxo quase infinito de contedos processados. Muitos dados não se transformam instantaneamente em conhecimento coerente e satisfatório — a mediação pode fazer toda a diferença na aprendizagem.

Escola, segundo Hannah Arendt, é o lugar do passado, onde se transmitem/discutem conhecimentos testados e sedimentados, só a partir dos quais os indivíduos poderão se tornar capazes de criar coisas novas.

Uma provocação pueril que, às vezes, se faz a enxadristas é afirmar que “xadrez desenvolve o raciocínio... para jogar xadrez” — o que é injusto. O jogo é fascinante, exige concentração, disciplina, estratégia e, também, desenvolve o raciocínio para muito mais do que jogá-lo.

Algo semelhante é dito acerca do uso de equipamentos eletrônicos na escola. Quando as calculadoras portáteis se popularizaram, começou o abandono das réguas de cálculo, tabelas trigonométricas e logaritmos — que eram indispensáveis, até então, a quem usasse cálculo em sua profissão. Esses recursos requeriam prática e atenção — e ainda que muitos usuários tenham desenvolvido grande habilidade, e ainda hoje os usem como exercício, eram mais lentos e imprecisos que a mais banal calculadora. Isso não implica em que o ensino básico da aritmética e da matemática deva dispensar os cálculos “manuais”. É muito importante para o bom aprendizado que se tenha plena noção de como as coisas acontecem, como se chegou a conclusões que parecem óbvias, mas que implicam em grande caminho percorrido.

A resolução de dificuldades — não apenas ligadas às ciências exatas — pode ser sintetizada na sequência usada nos primeiros passos da aritmética: definição do problema (a indagação “qual é a pergunta?”, a partir da qual se buscará a racionalização dos dados, fatos, informações, dúvidas e o modo de resolvê-los), cálculo (o processamento organizado da solução proposta) e resposta (a expressão das conclusões a que se chegou, com as respectivas provas ou justificativas).

A perfeita demarcação do problema e seu término dependem de conhecimento, criatividade e até mesmo de intuição — são atividades essencialmente humanas. O cálculo pode ser mecanizado. Um cirurgião, um arquiteto, um escritor se valerão dos recursos da tecnologia moderna em seus trabalhos e multiplicarão sua eficiência com eles. No entanto, suas ferramentas não prescindem do operador. Discernir o instrumento utilizado por mais tecnológico e adequado que seja — do verdadeiro trabalho do espírito humano ainda é função da escola e do bom professor.  

 

* Wanda Camargo , educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil  (UniBrasil.).

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