Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O momento certo para vender a empresa

Miguel Abdo*

Muitos acreditam que o momento correto de um empresário decidir  vender sua empresa depende basicamente de feeling, sorte de achar o momento adequado ou de receber uma boa oferta. Por isso, acabam perdendo ótimas oportunidades de negócio, recusando ofertas de aquisição, principalmente, por não terem um entendimento mais amplo sobre esta questão. Em relação aos dados de mercado que mostram essas movimentações de compra e venda, M&A, os investimentos dos fundos de private equity e de capital de risco subiram para 18 bilhões de reais em 2013 ante 13 bilhões no ano anterior, de acordo com dados da KPMG e da ABVCAP, entidade que representa os fundos. Houve um total de 186 aquisições, avaliadas em cerca de 100 milhões de reais cada.

"Estrangeiros continuam confiantes na economia brasileira", disse Luiz Eugenio Figueiredo, presidente da ABVCAP, durante congresso da entidade, no Rio de Janeiro. Segundo ele, os setores de infraestrutura atraíram parte relevante dos investimentos por conta da conhecida necessidade de investimentos nessa área. Porém, as incertezas da economia brasileira, o baixo crescimento e a inflação elevada, que tanto afetam o nosso empresariado, de fato não têm afetado o apetite dos investidores estrangeiros, como mostram os dados acima.

Neste contexto, a definição do melhor momento para vender ou atrair um investidor se torna cada vez mais crítico e de difícil conclusão. Para exemplificar, posso citar o caso de meu tio, que na década de 70 recebeu uma oferta de uma grupo multinacional para vender sua empresa no setor de abrasivos. Ele recusou a proposta e pouco tempo depois acabou fechando-a em detrimento da competição com grandes grupos estrangeiros. Logo após, faleceu por conta de um câncer desenvolvido enquanto ele lutava para manter sua empresa viva. Na verdade, é possível, em função de uma série de fatores, encontrar o melhor momento para se vender um ativo.

De fato, há uma metodologia e análise estruturada para chegar à conclusão do momento certa da venda. Alguns pontos são fundamentais para a tomada de decisão, tais como o histórico e o momento da empresa, do seu fundador, da sucessão, as perspectivas de mercado, o grau de consolidação do setor, economia, dinâmica do mercado externo e tendências internacionais. Existem casos onde o empresário perde uma boa oportunidade de vender sua empresa por divergência entre os sócios, por questões familiares,  bem como existem também casos em que o empresário se desfaz de seu ativo, por um valor baixo ou até deixa de explorar todo o potencial de seu negócio.

Outro fator importante é a clareza de quanto vale sua empresa. Essa é uma pergunta simples, mas que, em muitos casos, aparece como um dado incorreto ou mal calculado, o que vai impactar profundamente no valor da negociação. Há situações em que a empresa está com muitos passivos e processos trabalhistas, por exemplo, mas o mercado em que ela atua é promissor e pode sim se transformar em uma ótima negociação. O ideal em muitos casos é contratar gestores para “arrumar a casa”, o que quer dizer também deixar os números mais atrativos, criar um histórico que dá credibilidade a história que vem sendo contada. Por exemplo, se a empresa cresceu 15% ao ano com boa margem, faz sentido uma projeção crescimento ao redor de 15%, mas não faz se a empresa estagnou nos últimos anos. Portanto, a história, um novo cenário tem que ser construída para atrair investidores. 

Enfim, existe o momento da empresa e do mercado. Tem momentos durante os quais o mercado está favorável, com boa liquidez, e isso é um bom momento para se vender um negócio. Porém, se esperar mais tempo visando uma valorização maior, também pode ser um tiro no pé, pois quando os investidores sondam tais mercados é um sinal de que a concorrência ficará robusta e você pode perder a janela da oportunidade. A questão  sucesso na escolha do momento correto de se vender uma empresa depende bem mais de análise estruturada do que de uma decisão emocional ou baseada em feeling.  O valor justo é sempre o melhor negócio, mas para os empresários que desejam melhorar o valor da empresa, indico a busca de profissionais especializados para chegar ao resultado desejado.

*Miguel Abdo é diretor da joint venture Naxentia WorldInvest, especializada em fusões e aquisições no mercado brasileiro.

 

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