Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Morder não pode

Virgínia Ferreira* 

A punição ao jogador de futebol uruguaio Luis Suárez por morder um colega italiano em campo, na Copa, segue causando polêmica. Não é a primeira vez que um atleta morde outro durante uma competição esportiva. Em final de junho de 1997, Mike Tyson, durante uma luta em que disputava o título mundial dos pesos pesados, mordeu a orelha direita de seu opositor Evander Holyfield, e chegou arrancar um pedaço.

As possíveis causas são a falta de limites que esses atletas têm. Quando sentem que estão em desvantagem, recorrem a atitudes agressivas a fim de parar o opositor, não se importando com as consequências tanto para eles como para as vítimas de suas agressões, e, nesse caso do Suárez, nem para a seleção que ele ajudava a defender. O objetivo é parar e punir o opositor que estiver em vantagem.Seria uma inverdade tentar justificar essas atitudes agressivas, desmedidas e antissociais como um transtorno qualquer, pois, além de não haver nenhum transtorno, ainda os isentaríamos tanto da responsabilidade como das consequências de suas atitudes.

Nem toda criança que morde na infância irá continuar distribuindo mordidas na fase adulta quando contrariada. O ato de morder é uma atitude agressiva como qualquer outra. O fato é que há muitas pessoas que não admitem ser contrariadas ou estar em desvantagem, e, quando assim se sentem, reagem com agressividade, sem se importar com as consequências. 

O importante para ela é imprimir no outro algum tipo de dor para que, assim, o outro seja "parado". Via de regra, são pessoas que desconsideram os limites e as regras sociais e morais. Em certas situações, essa falta de limites vem da infância, em outras, não. 

Amar é educar. Educar é dar limites. Dar limites é dizer não. Todas as vezes que a criança apresentar um comportamento indesejável, é necessário que os pais chamem a atenção da criança na hora, por dois motivos: o primeiro é porque, se chamar a atenção depois, a criança mal lembra do que fez e não entende por que está sendo chamada a atenção. E o segundo é porque, para chamar a atenção, é desnecessário gritar, ofender, xingar ou dar algumas palmadas. Para chamar a atenção de uma criança é indispensável calma, clareza e esclarecimento, ou seja, além de dizer que ela não pode ter a atitude que teve, explicar por que não pode. A criança assim entende e raramente irá repetir o comportamento.

Entender as causas do estresse da criança é importante. Em tese, nenhuma criança deveria ter motivos para sentir estresse. Em geral, o que estressa uma criança ou é o ambiente familiar conturbado ou excesso de mimo. Se for o ambiente conturbado, os adultos precisam reorganizar o ambiente familiar, até porque um ambiente familiar conturbado não faz bem a ninguém. Se for por excesso de mimo, é necessário que os pais entendam o mal que estão fazendo a essa criança e mudem a forma de educar. Quando há excesso de mimo, a criança mimada se sentirá estressada sempre que contrariada e reagirá com agressividade contra o outro ou contra ela mesmo (auto-mutilação), mordendo, puxando o cabelo, batendo, chutando etc.Além do que, o mimo em geral faz com que a criança se sinta desprotegida pelos pais e faz com que ela mesmo tenha que se proteger, desenvolvendo assim o hábito da agressividade.

Agora, no campo dos adultos, a Fifa puniu exemplarmente a atitude agressiva e desmedida de Luis Suárez, o que o deveria fazer pensar antes de repetir tal atitude. Mas a imprensa internacional, em sua grande maioria, criticou a Fifa. Desta forma, se por um lado ele foi punido, por outro, alguns jornais internacionais o defenderam. Essa defesa internacional, certamente, o motivará a repetir tal atitude. Assim, fica difícil.

* Virgínia Ferreira, psicóloga/psicanalista, é professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis

Tags: aberta, coluna, ferreira, Sociedade, virgínia

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