Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Roteiro de leitura sobre Jorge Amado

Wander Lourenço*

Ao esboçar as ideias que abarcariam a crônica referente ao roteiro de leitura sobre Jorge Amado, curiosamente dei-me conta de que com o ficcionista ocorreu o contrário do que se dá com os escritores de um do geral. Ainda que muitos autores colham os louros de sua produção ficcional em vida, quando se retiram para outro patamar da existência humana, se é aqui me caiba o eufemismo... Pode-se dizer que, quando os escritores falecem, são mais lidos e até, quiçá, reconhecidos por um público leitor que até então se dera pela importância de tal espólio literário.

Todavia, com o saudoso Jorge Amado deu-se que todo reconhecimento cabível ao autor de livros memoráveis como Jubiabá e Dona Flor e seus dois maridos lhe fora concedido, apesar da implicância acadêmica com a ausência de certa autoridade metalinguística... Quando adentrei a Casa de Jorge, no Pelourinho, confesso que me impressionaram as inúmeras fotografias do criador de Capitães de areia com tantas personalidades de seu tempo.  Por falar nesta obra, sugiro que se inicie a leitura do “baiano romântico e sensual”, como se definia, por suas novelas extraordinárias: a já citada acima que antecede em décadas a discussão a respeito dos meninos de rua e o clássico A morte e a morte de Quicas Berro D’Água, mal adaptada para o cinema apesar do elenco capitaneado pelo magistral Paulo José, além da obra de menor importância estética Farda fardão, camisola de dormir.

Feita a iniciação, é de bom alvitre que se diga que Jorge Amado precedera Paulo Coelho, em popularidade e contestação. Já avisado, caso haja ensejo, disposição e curiosidade, o leitor poderá seguir a ordem cronológica das publicações de Jorge Amado: País do Carnaval, Cacau e Suor. Cabe acrescentar que os três primeiros livros são experiências mais norteadoras de enredo e espaço do que, propriamente, um encontro com a mais significativa criação artística da Geração de 30. Por exemplo, em relação a José Lins do Rego, com Menino de Engenho; e Rachel de Queirós, com O quinze, de fato Jorge Amado estrearia em desvantagem literária, de vez que os seus contemporâneos contribuíram com mais ênfase e propriedade como seguidores de Macunaíma, de Mário de Andrade;  e Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Quiçá, Amado se equipararia em condição de progresso ficcional com Graciliano Ramos que, do frágil Caetés, se notabilizaria com Vidas secas e São Bernardo. De acordo com a crítica especializada, a obra de ficção mais notável de Jorge Amado seria Jubiabá, por suas acentuadas preocupações narrativas em harmonia com um enredo mais bem fincado nos conflitos étnico-religiosos da cidade da Bahia de Todos os Santos, o que no tocante ao tema também se daria com Tenda dos milagres e Teresa Batista cansada de guerra. 

Aliás, dos outros três romances escritos sob a égide dos perfis femininos: Gabriela, cravo e canela, romance (1958), Dona Flor e seus dois maridos, romance (1966), Tieta do Agreste (1977), conquanto Pablo Neruda, conforme consta em seu Confesso que vivi, considerasse a saga da arrebatada retirante do sertão até Ilhéus uma obra-prima da ficção, Dona Flor..., a começar pela genialidade do enredo posto em narração, vem ser a mais enfática e genial concepção de engenho do inventor do exotismo literário de um país ao sul do Equador. Porém, o que poucos críticos observaram foi que, ainda em diálogo com Graciliano Ramos, que o fizera em São Bernardo com Dom Casmurro, Amado com sutilezas machadianas reacende a fogueira da inquisição social em referência ao adultério feminino.

Enfim, Jorge Amado, mesmo em terceira pessoa, escreve o seu mais afortunado livro, ao acenar para o realismo mágico de Gabriel García Márquez e as reminiscências do memorialista Brás Cubas, ao ressuscitar o esplêndido Vadinho, não como autor-defunto ou defunto-autor mas como protagonista da mais autêntica concepção dialógica entre a modernidade e o realismo/naturalismo: Afinal, Dona Flor não traiu o esposo farmacêutico Deodoro Madureira com o finado e predecessor amante Vadinho, que retorna do além ao convívio humano, em razão das recorrentes súplicas da viúva desamparada em plena manhã de Carnaval?

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). -wanderlourenco@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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