Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

O poder ineficaz da indústria brasileira

Airton Cicchetto*

Com uma contribuição de cerca de 25%, a indústria brasileira é geradora de um PIB aproximado de 550 bilhões de dólares. Para entender a magnitude desta cifra, pode-se dizer que a indústria nacional representa, por si só, o 25º PIB do mundo, estando à frente de mais de 200 países, entre eles, importantes economias como as da Bélgica, Suécia, Suíça, Chile, entre muitas outras. Ainda, o PIB da indústria nacional é maior do que o conjunto das economias somadas de mais de 100 países, mundo afora. O complexo industrial brasileiro é bastante diversificado, congrega centenas de milhares de empresas e milhões de empregados.

A união faz a força, e esta força é feita pela associação de quase 700 mil indústrias e 1.250 sindicatos patronais, conforme dados da sua entidade máxima, a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Como se pode ver, os números demonstram uma força muito expressiva, porém, força não ganha jogo. O jogo dos negócios se ganha com competitividade, atributo que nossa gigantesca indústria vem perdendo continuamente.

Hoje, o Brasil situa-se na 54ª posição no ranking de competitividade dos países, elaborado pela escola suíça de negócios IMD e a Fundação Dom Cabral. Há quatro anos o Brasil ocupava a 38ª posição neste mesmo ranking, o que significa dizer que, em quatro anos, 16 países ultrapassaram os níveis de competitividade do Brasil. Internamente, no país, a indústria também perde posição, pois há menos de uma década representava mais de 30% do PIB nacional. Nos últimos trimestres, a produção tem encolhido ainda mais, acarretando, inclusive, severa redução do nível de emprego no segmento industrial.

Claramente, há problemas, e, mais do que ninguém, os senhores da indústria sabem que o roteiro para solução de problemas passa pela identificação de suas causas e implementação de planos concretos de solução. Pois bem, as causas de nossa baixa competitividade estão diagnosticadas, são experimentadas diariamente pela imensa maioria dos milhões de gestores de negócios e empresários do Brasil — elas vêm vem sendo insistentemente veiculadas na mídia, escrita e falada, nos artigos, sínteses e comentários de analistas econômicos locais e também do exterior.

Para relembrar são estas as causas principais: pesada carga tributária, encargos trabalhistas mais altos do mundo, má qualidade da infraestrutura física (rodovias e portos deficientes), taxa de câmbio manipulada e posicionada em níveis nocivos aos interesses da indústria local, alta burocracia e corrupção no serviço público, ambiente generalizado de desconfiança, nível de investimentos insuficiente para alavancar maior crescimento da economia, entre tantas outras mazelas.

Pois bem, os problemas estão identificados há muito tempo, e suas soluções já deveriam estar em andamento. A indústria, a maior prejudicada, deveria por meio de sua entidade máxima, a CNI, estar usando seu mencionado poder, movendo sua enorme força no sentido de pressionar o governo a fazer o que deve ser feito, fazer a coisa certa. Atitude, aliás, alinhada com a sua missão, que prega: “defender e representar a indústria na promoção de um ambiente favorável aos negócios, à competitividade e ao desenvolvimento sustentável do Brasil”.

Este não parece ser o caso, pois os representantes da indústria vêm dialogando com o governo há muito tempo, como fizeram 34 empresários na última semana e, aparentemente, têm se satisfeito com medidas paliativas de ajuda a um ou outro setor, o que, sabidamente, não corrige as causas básicas e não foca o resultado desejado, que é o aumento real da competitividade das empresas e do país.

Peter Drucker define eficácia como fazer a coisa certa, com foco no resultado. Não é, exatamente, o que o governo vem fazendo, e, por sua vez, a indústria, por meio de seus representantes, não tem exigido do governo uma atuação mais assertiva. A indústria, sabe-se lá as razões, não tem usado seu grande poder. A propósito, diga-se, um poder mal utilizado, que não denuncia malfeitos, não pressiona por soluções, não foca resultados, vem minguando e se revelando, embora imenso, um poder ineficaz.

*Airton Cicchetto, consultor, palestrante empresarial e engenheiro, é mestre em administração e idealizador do modelo SCG (Simples Complexo Gerencial).

Tags: aberta, aírton, cichhetto, coluna, Sociedade

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