Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O 'boom' turístico para os habitantes do Rio de Janeiro

Eduardo Paparguerius*

No México dos séculos 18 e 19 surgiu a palavra gringo, empregada pejorativamente para fazer referência aos “irmãos do norte”. Fruto da contração do substantivo green (verde, a cor do dólar americano) e do verbo to go (ir), o vocábulo expressa a opressão econômica vivida pelo povo do México, a primeira vítima da expansão imperialista dos EUA. Claro que não tem aqui nenhum Pancho Vila, e muito menos vamos assumir qualquer postura xenófoba. Muito pelo contrário, também sou muito orgulhoso da minha cidade e tenho uma grande simpatia por essas pessoas que nos visitam. Porém, deixando de lado o glamour de virar uma atração mundial, o que representa para o nosso bolso essa verdadeira invasão estrangeira? A resposta é simples, aumento no custo de vida.

O Rio de janeiro agora é de fato surreal! Subiram os preços dos aluguéis, da alimentação e de quase todos os serviços bem acima da média nacional. Ganhamos a mesma coisa em real, mas os preços da cidade são para quem ganha em euro ou dólar. Nossos governantes vivem  enaltecendo o turismo, dizem que gera empregos e que traz recursos para a cidade, mas que empregos são esses? Arrumadeiras, carregadores de mala, porteiros de hotel? Os empregos gerados pela indústria do turismo são em geral de baixa remuneração e exigem pouca qualificação da mão de obra, trazendo benefícios sociais medíocres. O dinheiro trazido pelos visitantes circula apenas em setores restritos e específicos, não beneficiando em nada a maioria do povo. O que tem a ganhar o professor, o operário, o bancário ou qualquer outro cidadão não diretamente ligado ao setor com a indústria do turismo? Nada. Já os custos sobram para todo mundo.

Vejamos por exemplo a Copa da Fifa. Demolimos um estádio recém-reformado e reconstruímos a um custo bilionário para atender aos turistas do futebol. E quem paga a conta? Estamos seguindo o exemplo de Atenas, em que a indústria do turismo vai muito bem e o povo muito mal. Os gregos fizeram investimentos elevados pra sediar os jogos, contraíram dívidas enormes, que agora estão pagando com seus empregos, com as aposentadorias de seus idosos e com a soberania econômica de seu país. O tal legado social dos eventos de que tanto se vangloriam os políticos então é uma verdadeira bofetada na cara do povo. Quer dizer que se não viesse essa gente de fora não ia ter trem novo, BRT, expansão do metrô? Nada disso, ia tudo continuar como sempre (se é que vai mudar alguma coisa mesmo), com o bondinho matando as pessoas por falta de manutenção, transportes caóticos, enchentes e tudo mais.

Guardadas as devidas proporções, estamos começando a viver no Rio a mesma situação que os habitantes de Búzios e outros balneários turísticos — cidadãos que veem sua cidade ser completamente estruturada para atender aos veranistas e passam a ter um papel secundário em sua própria terra. É bem provável que a tendência já existente de concentrar os serviços públicos (pagos com o dinheiro de todos) nas áreas turísticas venha a acentuar-se e o trabalhador saia do emprego em Copacabana vendo garis, guardas municipais e policiais dando cabeçadas uns nos outros e chegar na periferia se esquivando de balas perdidas, driblando montanhas de lixo e atravessando valas negras.

Vamos continuar a receber os visitantes com o mesmo carinho e acolhimento que tornaram o carioca famoso em todo o mundo, mas precisamos construir uma cidade voltada para nós, cidadãos, que vivemos aqui. Mesmo porque, se começarmos a nos sentir deslocados em nossa própria cidade, o que será da nossa cultura?

* Eduardo Paparguerius, jornalista, é artista plástico e mestre em história.

Tags: aberta, coluna, eduardo, paparguerius, Sociedade

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