Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Ilusão como verdade

Wanda Camargo*

Ao contrário do que afirmava o ministro nazista da propaganda, uma mentira muitas vezes repetida não se transforma em verdade. No entanto, seria comovente — não fora irritante — o esforço feito para transmutar fatos inconvenientes em outros mais ao gosto de quem os apresenta.

Os setores ligados à economia são destaque — praticamente todas as declarações de autoridades desta área são desde sempre interpretadas pelo seu oposto: quando se diz que determinada tarifa não vai ser aumentada, sabe-se que em breve virá aumento. Previsões acerca do comportamento da inflação ou do PIB têm reduzida credibilidade. E os autores do despautério não são, geralmente, alienados ou desinformados — ao contrário — esperam com suas fantasias verbais apenas iludir a plateia.

A quem se destinam essas profecias que se espera autorrealizáveis? Os grandes investidores e empresários não tomam decisões com base em informações públicas. Os leitores de jornais perderam a fé em milagres econômicos. O restante da população apenas se desespera com as pequenas misérias diárias.

No setor de obras, chega-se ao surrealismo. Frente a estádios, aeroportos e avenidas claramente inacabados, sempre há uma autoridade afirmando que está tudo pronto — ou que estará na próxima semana, como se palavras mudassem a realidade.

Na maior cidade do país, bairros inteiros penam há meses com abastecimento de água precário e intermitente — e dirigentes afirmam que não há o menor risco de racionamento. Uma atitude adulta de racionalização da distribuição do líquido seria necessária, visto que os níveis de represas e aquíferos descem de modo alarmante. Entretanto, ouviremos mentiras bem (ou mal) intencionadas até que o problema não reconhecido se torne catástrofe.

É comum vermos em noticiários denúncias de hospitais e escolas em péssimo estado, sem a menor condição de funcionamento, seguidas da declaração dos responsáveis de que a solução para o problema, que se arrasta há meses ou anos, já está encaminhada e virá muito brevemente. O absurdo passaria a existir apenas a partir da denúncia, e garante-se tomar as providências. Mas, na maioria dos casos, nada será feito, bastando que tenha sido dada resposta à mídia.

A própria área educacional parece contaminada pelo delírio de que “contra argumentos não há fatos”. O método científico que deveria balizar a ação de pesquisadores é, cada vez mais, substituído pelo método ideológico, como se as verdades fossem dadas por inspiração divina, bastando justificá-las.  Muitas pesquisas são feitas apenas para provar aquilo em que se acredita a priori, quando deveriam testar teorias a partir da experimentação, prova e contra prova e, só então, definir teses. Em algumas salas de aulas tem prevalecido a lógica das convicções pessoais, em detrimento da serena exposição dos acontecimentos com suas diversas interpretações possíveis.

Um personagem de um filme de John Ford, O homem que matou o facínora, declara, acerca de uma notícia: “Se a lenda é melhor que o fato, publique-se a lenda”. A propaganda substitui completamente a realidade, não importando o fato, e sim sua versão, aos poucos encobrindo nossa indigência intelectual com a purpurina do jeitinho e da espontaneidade.

 

* Wanda Camargo, educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).

 

Tags: aberta, camargo, coluna, Sociedade, wanda

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