Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Do que precisamos para sair da retranca

José Ricardo Roriz Coelho*

Ao contrário da Seleção Brasileira, que, apesar de não fazer uma apresentação de alto nível, jogou para a frente na estreia contra a Croácia na Copa do Mundo, o nosso empresariado está na retranca. A análise de fatos, dados, evidências, sensibilidade do mercado e projeções da economia os têm forçado a jogar na defesa. Tal atitude, porém, não corresponde ao seu perfil empreendedor e ousado, mas evidencia as dificuldades que têm reduzido a competitividade de nossa economia, em especial da indústria de transformação.

As estatísticas vão mostrando, a cada mês, as dimensões dos problemas. Nos primeiros quatro meses de 2014, por exemplo, a balança comercial dos transformados plásticos teve saldo negativo de US$ 904,72 milhões. Ante números como esses, que se repetem em distintos setores, é importante analisarmos com mais atenção os resultados de pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), realizada pelo Departamento de Competitividade e Tecnologia da entidade: pelo menos um terço das indústrias brasileiras não pretende fazer investimentos este ano.

Trata-se do pior resultado do estudo nos últimos três anos. Dentre as 1.200 empresas consultadas em 2013, mais de 80% iriam fazer algum tipo de investimento. A mudança de tática em 2014, com mais cuidados defensivos, expressa a percepção dos setores produtivos de que a economia não está oferecendo cenários que balizem os riscos dos investimentos dentro de padrões compatíveis com a normalidade do capitalismo. Por isso, a maioria está jogando na defesa.

Não é sem razão que tenho insistido na tese de que o Brasil precisa de uma estratégia para iniciar um novo ciclo de expansão. Sem investimentos, é impossível retomar níveis mais elevados de crescimento do PIB. Necessitamos reagir. O primeiro passo é reduzir as despesas públicas, pois com o governo, em todas as instâncias, gastando mal e muito, não temos como baixar os juros, e o alto preço do dinheiro é inimigo do aporte de capital em empreendimentos produtivos. Isso dificulta a obtenção de ganhos de eficiência e produtividade e seus reflexos positivos no equilíbrio entre oferta e demanda, com produtos inovadores e de baixo custo. 

Também é preciso racionalizar a burocracia, que dificulta muito o trabalho das empresas. Não só emperra e atrasa numerosos procedimentos como aumenta os custos. É importante, também, dinamizar programas como as parcerias público-privadas e realizar política monetária (juros e câmbio) de estímulo à economia, além da melhoria dos serviços públicos, pelos quais os brasileiros pagam uma das mais altas cargas tributárias do mundo.

Obviamente, não se pode falar em competitividade sem lembrar as agruras do “Custo Brasil” (composto por carga tributária, que incide inclusive sobre investimentos, algo raro em todo o planeta; burocracia, capital de giro, energia/matéria-prima e infraestrutura/logística), somado à política monetária na contramão da realidade global. Tudo isso faz com que fabricar no país seja pelo menos 34% mais caro do que nas economias com as quais concorremos.

Algumas vezes, fatores externos, como ocorreu antes da crise de 2008, contribuem para impulsionar as nações emergentes. Em cenários internacionais positivos, os problemas do Brasil ficam mais latentes, mas acabam se manifestando com mais gravidade quando, como agora, a conjuntura global exige mais eficiência de nossa economia. Por isso, precisamos o quanto antes partir para o ataque!

*José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico e do Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado de São Paulo, é vice-presidente e diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp.

Tags: aberta, coluna, ricardo, roriz, Sociedade

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