Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Os mundos de Chico Buarque

Ricardo Luigi*

Eu era bem pequeno da primeira vez que escutei a canção Tanto amar (1981), de Chico Buarque. Os últimos versos ficaram marcados na minha cabeça: “amo tanto e de tanto amar/ em Manágua temos um chico/ já pensamos em nos casar/ em Porto Rico”.

Demorei algum tempo para entender que Manágua era a capital da Nicarágua, que Porto Rico era um país, e que ambos ficavam na América Central. Demorei mais tempo ainda para entender toda a complexidade da letra se é que entendi. Mas a audição dessa música foi uma das primeiras experiências a me transportar para além do Brasil.

Até então o mundo era grande demais para a minha cabeça. As primeiras noções de espaço da criança são a casa e seus cômodos. Até a adolescência a escala vai se ampliando: escola, bairro, cidade, país, planeta, universo. E à medida que fui absorvendo mais da obra do poeta, “foi o mundo então que cresceu”, e, nesse alargar dos meus horizontes geográficos, o espaço internacional apareceu, com suas respectivas relações.

Em muitas músicas do cantautor o Brasil nos é apresentado, como em Para todos (1993). Bye, bye, Brasil (1980) alarga esse país, e, ao tratar da dinâmica do trabalho, inclui outras nações. Além disso, pode-se falar das mulheres de Chico: não só as brasileiras, como as de Angola, de Amsterdã, de Atenas. Enfim, vasto material para pesquisa.Mas a experiência com os mundos de Chico Buarque chegou ao ápice, para mim, com duas obras. Por um lado, na canção Sonhos sonhos são (1998) o artista citou um número recorde de paragens: América Latina, Cairo, Lima, Calcutá, Lisboa, Macau, Maputo, Meca, Bogotá. Por outro, no livro Budapeste (2003), Chico é cicerone de uma Hungria que nem mesmo ele conhece, imaginada com base em mapas e guias. Diz-se que, quando inquirido sobre o desafio, se era possível escrever sobre a Hungria sem lá pisar, Chico respondeu: "Ora, o mestre húngaro Sándor Márai conseguiu descrever Canudos sem nunca ter pisado no Brasil”.

Muito mais se pode dizer da contribuição do artista, que nos ensinou sobre as cidades, sobre os amores, sobre política. Sobre a Itália, a França, e suas línguas. Ensinou para as crianças. Sobre dores e alegrias. Poesia engajada e poesia pela poesia. Sua contribuição transpassa as fronteiras do país. Roda mundo.Chico Buarque de Hollanda completa 70 anos. É preciso celebrar o multiartista, um dos maiores do Brasil, pela capacidade que teve de, em suas obras, “lançar mundos no mundo”.

P.S.: O futebol é reconhecidamente uma das maiores paixões de Chico Buarque. E neste aniversário celebrado durante a maior competição do esporte, o escritor Chico foi agraciado com uma homenagem que funde literatura e futebol. O site Three ercent, da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, criou o evento paralelo Copa do Mundo de Literatura, onde os países se enfrentam com base em uma obra. Budapeste é o representante brasileiro, que começou ganhando por 4x0 de um livro de Camarões. Para acompanhar e torcer pelo Brasil nessa disputa, acessem: http://www.rochester.edu/College/translation/threepercent/

* Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor de relações internacionais da Universidade Paulista e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais  - ricardoluigi@cenegri.org.br

Tags: aberta, coluna, luigi, ricardo, Sociedade

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