Jornal do Brasil

Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

A bola e a urna

Robson de Oliveira* 

Há incríveis semelhanças entre a bola e a urna: o Brasil encontra fanáticos da bola; a urna tem seus talibãs; a bola torna milionárias pessoas sem grandes qualificações intelectuais; a urna produz seus sultões bienalmente, mas à custa da população brasileira; a bola é a esperança de milhões de pessoas honestas mudarem de vida; a urna igualmente, só que lançando sombras sobre o comprometimento moral de seus candidatos. A bola é causa das paixões mais irracionais, arrebatadoras e violentas: a alegria; a urna também: o ódio! Contudo, há aspectos da bola com os quais não sabemos se a urna compartilha. A seleção da Espanha experimentou o lado mais amargo da bola no jogo de quarta-feira.

Como diria o filósofo Muricy Ramalho, a bola pune. Com a crueldade da mulher traída no seu amor mais profundo a bola pune; com aquela amarga frieza própria da vingança justa a bola pune; muitas vezes com um sorriso estampado no rosto do torcedor, seu maior bem, a bola pune os que não lhe dão, como esposa ciumenta que é, o tratamento adequado.

Sem considerar os eventuais benefícios recebidos no passado a bola pune; sem esquecer o desrespeito agora cometido, a bola pune; sem valorizar as boas intenções nos corações a bola pune; sem contabilizar futuros sucessos também; a bola pune; enfim, sem a memória dos males mas também sem a esperança dos bens a bola pune. Será que a urna possui esse mesmo sentimento?

Contudo, principalmente por causa da importância infinita do futebol, a bola pune e sempre punirá; em razão do contrato implícito na batalha futebolística, expressa dogmaticamente no ditado popular “quem não faz, leva”, a bola pune e sempre punirá; porque o torcedor tem o direito de ver o duelo de dois adversários que se respeitam, a bola continuará a punir a equipe que não se preparar suficientemente, que não respeitar o oponente suficientemente, que não der tudo de si nesse esmeraldino campo de batalha.

A Fria rompeu o contrato com a bola, e ela pune. Mesmo preferindo o toque de classe, a precisão do craque, a delicada violência do goleador, a bola pune os que não levam o jogo a sério, os que se fiam no sucesso passado, os que negligenciam o doce peso de ser protagonista de uma Copa do Mundo. Pois, ser escolhido pela bola é ser escolhido para uma missão que ultrapassa em muito cada jogador, cada equipe, cada campeonato. É para o torcedor que a bola existe. E aqui voltamos à analogia com a urna.

No país do futebol arte, frequentemente a bola é utilizada como circo para uma parte da população; enquanto a urna, não raro, nega o pão à outra parcela não pequena de cidadãos. Em breve saberemos se tudo o que se disse da bola, especificamente no que diz respeito ao descaso, ao desrespeito, à fidelidade com o povo, pode ser aplicado também à urna.

* Robson de Oliveira, professor de filosofia (PUC-RJ e Anhanguera-Niterói), é membro do Centro Dom Vital..

Tags: aberta, coluna, oliveira, robson, Sociedade

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