Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Roteiro de leitura sobre Lima Barreto

Wander Lourenço*

No Centro de Convenções de Cordisburgo, ao término da conferência apresentada na Semana Roseana sob o título de Diadorim – A reinvenção de Dom Quixote de La Mancha (Inversões ficcionais do mito da Távola Redonda em Grande sertão: veredas), fruto da pesquisa de pós-doutoramento na Universidade Clássica de Lisboa, um senhor de cabeça branca adentrou o palco, dizendo-me: “– Quando eu falar o meu nome, você irá me reconhecer em razão de meu pai, que fora um renomado crítico de literatura”. Eu, laconicamente, respondi: “Pois, diga-me, por favor”. Foi então que o homem disparou à queima roupa: “– Alceu Amoroso Lima Filho".

Já no almoço no restaurante Sarapalha, lembrei-lhe de que Alceu Amoroso Lima, mais precisamente como ficou conhecido o Tristão de Ataíde, sintetizou a obra de Lima Barreto como nenhum outro crítico literário aventara a sentenciar: Vencido na vida, inadaptável, comunica à sua literatura um acre perfume de tédio e amargor. Sua obra é uma galeria de caricaturas sociais, magistralmente traçadas. O criador de Policarpo Quaresma, tipo nacional por essência, estiliza o ridículo. Mais do que um ironista, um cético, ou um revoltado, Lima Barreto é um caricaturista, (...) um humorista da estirpe intelectual de Machado de Assis. Dito isto, Amoroso Lima enfatiza que o autor de Claro dos Anjos se enquadraria na categoria dos grandes autores por escrever nas entrelinhas. De fato, logo em seu livro de estreia Recordações do escrivão Isaías Caminha se detecta, a partir do título, uma proposição de diálogo que se instaura entre a Carta e o registro ficcional que se arvora a buscar uma nítida ruptura com a tradição literária vigente, sobretudo, no diz respeito à linguagem. Para seguir o raciocínio de Tristão de Ataíde, o mais aconselhável seria atentar para os livros subsequentes Triste fim de Policarpo Quaresma e Vida e morte M.J. Gonzaga de Sá.

Neste último, porém, mais do que “um humorista da estirpe intelectual de Machado de Assis”, Lima Barreto se afigura como um exímio perscrutador da alma humana à luz do mestre criador de Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Ainda que traga à tona um conto inspirado na experiência estética do memorialista Cubas,Carta de um defunto rico, sem sombra de dúvida, o Gonzaga de Sá é o livro mais machadiano de todo o seu espólio ficcional. Em se tratando da escrita por entrelinhas, Triste fim de Policarpo Quaresma vem a ser arquitetada pelo viés da reinterpretação desta Bruzundanga, que se alicerça em conduzir o leitor pelo subterfúgio quixotesco de um personagem fora de sua época a se municiar da leitura desde Jean de Lery, Hans Staden e Rocha Pita a Alencar e Gonçalves Dias, ao invés de novelas de cavalaria do fidalgo Cavaleiro da Triste Figura. 

Os matizes patrióticos que demarcam a narrativa sobre os arroubos ufanistas do Major Quaresma, a todo instante, se perfazem pelo interdiscurso, cujas alusões se referem ao episódio da necessidade de substituição idiomática da língua portuguesa para o tupi-guarani. Caberia acrescentar que tal menção linguística se ancora na reivindicação romântica referente ao afastamento da sintaxe lusitana. No tocante à sua estrutura, o romance Triste fim se inscreve através da composição d’Os sertões, de Euclides da Cunha, com simbólica inversão das partes denominadas A terra e O Homem, de vez que Lima Barreto inicia a narração com a descrição dos excêntricos costumes de Policarpo Quaresma, que irá desaguar em seu exemplo de patriotismo que culmina, conforme bem ressaltara Silviano Santiago, na reescritura da sentença proferida por Vaz de Caminha: “Nesta terra, tudo que se planta dá”. 

Ainda que sobrevivesse à sombra de um gênio da estirpe de Machado de Assis, o marginalizado Lima Barreto registra duas obras-primas do conto que são A nova Califórnia e O homem que sabia javanês, além do magnífico Um especialista. Enfim, ao desfechar o artigo, mesmo que pareça um contrassenso em plena Copa do Mundo dedicá-lo a um homem que não apreciava futebol, faço minha as suas palavras para justiçar a homenagem: “A única crítica que me aborrece é a do silêncio, mas esta é determinada pelos invejosos impotentes que foram chamados a coisas de letras, para enriquecerem e imperarem.

 *Wander Lourenço de Oliveiradoutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br          

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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