Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Obrigado por ser honesta 

Siro Darlan*

Minha mulher havia comprado uma calça de marca numa loja muito frequentada de um Shopping na Barra da Tijuca. Após experimentar dois modelos, optou pelo que melhor se adequava ao seu gosto. Ao chegar a casa verificou que a vendedora equivocadamente lhe havia cobrado um e embrulhado os dois modelos. Imediatamente telefonou para a loja e comunicou o fato comprometendo-se a devolver tão logo voltasse ao shopping. 

Alguns dias depois fomos ao cinema, e ela aproveitou para fazer a devolução. Ao chegar à loja, a gerente incrédula lhe disse: “Obrigado por sua honestidade. Ao que repliquei que nada tinha que agradecer, pois o que ela fizera era sua obrigação. E a vendedora agradecida respondeu que isso não era o usual. 

Honestidade é, na verdade, uma honra, uma qualidade da pessoa que não mente, não se omite, não dissimula. O indivíduo que é honesto repudia a malandragem, a esperteza de querer levar vantagem em tudo. É uma obediência natural às regras morais existentes. Recentemente, a imprensa noticiou o fato de um taxista em São Paulo ter procurado turistas mexicanos no hotel para devolver uma pasta cheia de preciosos ingressos para a Copa. 

É incrível como fatos dessa natureza ainda causem espanto quando deveria ser o mais usual possível. Uma pessoa nessas condições deve sempre se colocar nas condições da pessoa lesada ou enganada para concluir que ninguém gosta de ser passado para trás. As regras de convivência exigem o respeito ao que é legal e moral. Não se pode achar normal passar os outros pra trás e reclamar da corrupção de políticos e administradores públicos, isso é uma contradição. 

Ser honesto não é nenhum favor, é decorrência natural do respeito que devemos ter uns pelos outros. É na verdade uma obrigação em qualquer sociedade minimamente civilizada que os limites sejam respeitados. Contudo, essa conquista somente virá com uma educação de qualidade, que é o que se deseja para nossas crianças e jovens. 

Em tempos de esportes e de escolhas devemos buscar aqueles que são exemplos e não macularam seus currículos com atos de improbidade e desonestidade. Não se pode achar normais atos de administração pública em qualquer de suas esferas que não sejam transparentes e respeitem as normas republicanas. No Judiciário essa obrigação ainda deve ser maior, porque quem interpreta as leis e afirma direito não deve ter a menor condescendência com o que não for reto e honesto. 

Afinal, é no Judiciário que o cidadão deposita suas esperanças de Justiça e reconhecimento de seus direitos.

*Siro Darlan Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, é membro da Associação Juízes para a democracia. - sdarlan@tjrj.jus.br

Tags: aberta, coluna, darlan, siro, Sociedade

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