Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Esporte e violência

Siro Darlan*

A Copa do Mundo no Brasil começou com uma festa da Fifa reproduzindo o Brasil que ela, Fifa, acha que conhece. Para tanto designou uma equipe belga para falar sobre a cultura brasileira. Os interesses da Fifa são insondáveis, porque a festa foi um fiasco, e ficamos com essa conta como se não tivéssemos nada mais interessante para mostrar. Com tantos mestres acostumados a fazer festas muito mais lindas no Amazonas, no Nordeste, na Bahia, e no maior espetáculo da Terra, o Carnaval do Rio de Janeiro, a Fifa, que tudo está decidindo a seu bel-prazer, nos mostrou ao mundo numa pobreza colegial.

O jogo de abertura comprovou que a festa não foi do povo brasileiro. Mais parecia um estádio europeu, onde não havia sequer a torcida do Corinthians, dono do estádio, e muito menos nossa multirracial população. Apenas a elite rica e branca teve acesso aos preços padrão Fifa inaccessíveis aos trabalhadores brasileiros. Essa elite demonstrou toda sua “educação” vaiando a maior mandatária do país perante a plateia mundial.

Dizem que a Copa de 2014 nos deixará um grande legado. Se for o da estreia, é melhor dispensar. Nossa educação, embora pobre e desprezada pelo poder público, é infinitamente superior à amostra inicial. Isso ficou demonstrado nas pesquisas realizadas: os maiores elogios dos turistas vieram para os brasileiros por sua hospitalidade e alegria na recepção aos que nos visitam. As críticas, claro, coincidem com as nossas e pelas quais lutando nos logradouros públicos, apesar da forte opressão policial.

A Copa do Mundo é um momento de grande expectativa e agitação, porque os olhos do mundo estão voltados para nosso país. Mas é também motivo de muitos atos violentos de torcedores apaixonados que confundem a paixão pelo esporte com violência contra os que são e pensam diferente. As brigas entre torcedores organizados têm sido recorrentes, e a violência tem levado a muitos óbitos.

O psicólogo Roberto Romeiro Hryniewicz afirmou, em sua pesquisa de mestrado, que “não é a paixão pelo futebol que causa a violência entre torcedores mas, sim, a maneira como as pessoas lidam com essa paixão”. Segundo ele: “Paixão pelo futebol é esse sentimento que parece justificar os gritos e pancadarias nas torcidas. Se na Copa do Mundo o país se reúne para torcer pela nação, o cotidiano do futebol não representa tanta união. A lista de torcedores mortos em jogos é extensa”.. 

A violência no esporte é uma das faces da violência cotidiana na sociedade. Se o esporte já serviu a ditadores e a ditaduras, também pode nos oferecer grandes lições de solidariedade, como o caso da “democracia corintiana”. Por outro lado, o discurso de que temos de “vencer na vida” a todo custo também se desloca para os campos de futebol. Ora, “se não vencemos no trabalho, pelo menos nosso time tem que vencer!”— “Se nossa nação é tão desigual, pelo menos a Copa ela precisa vencer..

Cabe termos essa reflexão, mas, por óbvio, não deixaremos de torcer, tanto pelos nossos times quanto por mudanças. E não deixar que esse circo esportivo nos inebrie tanto que nos tire da realidade que enfrentaremos em ano eleitoral, tão logo as cortinas sejam baixadas.

 

*Siro Darlan Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, é membro da Associação Juízes para a democracia. - sdarlan@tjrj.jus.br  

 

Tags: aberta, coluna, darlan, siro, Sociedade

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