Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Os russos ainda são os inimigos...A geopolítica imita a arte?

Ricardo Luigi*

Em 2008 assisti ao filme Caçador de pipas (The Kite Runner). A leitura das críticas do filme no jornal já havia me impressionado. Não por dizerem se o filme era bom ou ruim. Mas pelo fato de um filme americano ter em quase todo o seu elenco atores não americanos.

A película foi rodada na China, na Califórnia e, em menor parte, no Afeganistão e no Paquistão. Mas o elenco era 2/3 de afegãos. E isso fez muita diferença para uma cabeça ávida pelo que acontece de forma um pouco distante do mainstream.

Dito isto, fui com a expectativa de encontrar um novo cinema hollywoodiano, isento de dogmas e preconceitos, abrindo concessões antes inimagináveis para a “arte pela arte”, como queriam os escritores parnasianos do século 19. Entretanto, essas minhas impressões começaram a se diluir no trailer. Antes de começar o filme proposto, nos trailers prévios estava um filme do diretor canadense David Cronenberg. A produção anglo-américo-canadense se chama Senhores do crime (Eastern Promises), e mostra a impiedade e a truculência da máfia russa. Mas a ligação fluiu na minha cabeça quando essa “propaganda” passou novamente. Pois é, jamais havia visto isso. Um trailer passar, duas vezes, a última imediatamente antes do filme. Pode ser coincidência...      

Durante o filme, os russos eram passados como invasores e destruidores do Afeganistão da infância do personagem principal, o que causa uma revolta eterna em seu pai. Em um momento inapagável, o afegão pai, consultando um médico para investigar o mal que o acometia, ao descobrir que o “doutor” tinha raízes russas, interrompe a consulta bruscamente e sai atordoado.

Certo, sei que isso faz parte do livro. Não há nenhuma “conspiração secreta. Mas interpreta as coisas de forma turva quem se acostumou a ver o Rambo rotulando todos os vietnamitas de inimigos, e o agente 007 e Rocky Balboa sofrendo nas mãos dos “frios, insensíveis e sanguinolentos russos”.

Passada a ordem bipolar da Guerra Fria, em que russos e americanos se digladiavam pela hegemonia mundial, pensei que a questão fosse mudar de figura. Imaginei que, se ainda houvessem “inimigos ideológicos” no cinema americano, esses fossem ser representados pelos chineses, pelos muçulmanos, até mesmo pelos venezuelanos. Só não imaginei que a “mística russa” ainda exercesse tanto fascínio.

Hollywood representa nas telas o imaginário coletivo do cidadão dos Estados Unidos. Pesquisa do Instituto Guallup divulgada em 27/03/2014, realizada depois da reanexação da Crimeia à Rússia, mostrou que 68% dos americanos consideram a Rssia hostil ou inimiga.

A geopolítica imita a arte? O cinema foi visionário. Antecipou algo que já vinha latente, e a crise na Ucrânia contribuiu para aclarar: de um lado, o expansionismo russo de Putin, e de outro o soft e o hard power associados pela manutenção da hegemonia americana. Juntando todos esses ingredientes, fica difícil não imaginar: mais que rivais, os russos ainda são os inimigos dos EUA.

* Ricardo Luigi, professor de relações internacionais da Universidade Paulista, é diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais. - ricardoluigi@cenegri.org.br

Tags: aberta, coluna, luigi, ricardo, Sociedade

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