Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Gente e pano

Larissa Acosta*

Caminhavam pela Enseada de Botafogo. Nas mãos, os restos de um farto jantar esfriavam dentro de uma quentinha de alumínio. Enquanto ele contemplava as luzes da Urca do outro lado da baía, algo no chão prendia a atenção dela.

Um lençol encardido cobria um corpo frágil e imóvel. Aquele homem esfriava na calçada, assim como as sobras esfriavam dentro do embrulho mal feito que carregava.

– Olá... – disse ela.

O bicho humano continuava inerte e calado.

O que você está fazendo?! – perguntou ele, surpreso ao perceber que ela não o acompanhava na contemplação da estonteante vista que os cercava.

Quero dar esta quentinha a esse homem.

Deixe aí no chão, ao lado dele. Não vamos acordá-lo. Pode ser agressivo – a advertiu.

Ele não é um cachorro, tem mãos. E é a elas que quero entregar esta comida.

Ela voltou seus olhos para a massa cinzenta no chão.

Ei, moço! – tentou mais uma vez.

Permanecia imóvel.

Deixe isso logo aí! É perigoso ficarmos aqui parados – ele insistia.

Por um breve momento, o medo que a acompanhava a cada passo que dava naquela cidade havia dado lugar a um carinho gratuito e solidário. Parecia que um balde de realidade havia sido derrubado em sua cabeça.

Sentiu-se entorpecida quando sua mente tentou colocá-la debaixo daqueles trapos pútridos, no chão duro de pedrinhas portuguesas, com a barriga vazia de comida, mas cheia de dores e lamentos. Era impossível, inverossímil.

Ela não vivia no melhor dos mundos, mas aquele homem pertencia a um pior, inóspito e cruel. Deu-se conta de suas abissais diferenças quando percebeu que seus maiores problemas se tornariam soluções se, de alguma maneira, pudessem ser transferidos para a vida daquele ser.

O aluguel aumentou, o carro quebrou, a conta de luz está cara, não consigo terminar a faculdade... pensava, no mesmo ritmo apressado de seus passos, que distanciavam-na daquela figura turva, que agora se confundia com as sombras que enfeitavam a noite.

De longe, pôde ver a embalagem metálica da quentinha reluzir: mãos haviam surgido do meio daquela mistura de gente e pano despejada chão. “É só mais um homem”, ela sussurrou para si.

Aconchegada no banco traseiro do táxi, se perdeu na bela vista do Aterro do Flamengo e em seus problemas. “Que péssimo serviço o desse restaurante”, lamentou

* Larissa Acosta é cronista.  

Tags: aberta, acosta, coluna, larissa, Sociedade

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