Jornal do Brasil

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Ucrânia

Aurélio Wander Bastos* e Lier Pires Ferreira**

A Ucrânia, terra natal de Liev Trotsky, líder histórico da revolução russa de 1917, está numa posição geopolítica comprimida por duas grandes potências mundiais: a Rússia, ao norte-nordeste, e a Alemanha, ao leste, levando consigo a Europa e os EUA devido a sua posição báltica, ao nordeste.  Mergulhada em graves convulsões econômicas e sociais, que sucederam à desagregação da União Soviética e à reconstrução do Leste europeu, após a Segunda Guerra, não consegue desvencilhar-se de sua delicada situação política.  

Para solucionar a sua crise institucional, tornou-se imprescindível um acordo entre as forças políticas internas, permeadas por grupos radicais de extrema direita, que relembram a sôfrega do nazismo alemão e, após a Segunda Guerra Mundial, a própria dominação soviética, até a sua independência em 1981.  

O governo provisório da Ucrânia, liderado por Alexander Turchinov, que afastou, na forma de um golpe parlamentar, VictorYanukovitich, aliado russo, não enfrentou somente forças milicianas endógenas mas também forças militares rebeldes, vitoriosas em Donetsk, Druzhkivka e outras províncias, sendo que a Crimeia, que lhe fora anexada por ato do ucraniano Nikita Khruchov, secretário geral do PCUS, em 1954, já se presume, definitivamente, a partir da adesão publicitária da sua população, província da Federação Russa.  

No quadro conjuntural deste conflito, dentre as principais forças internacionais, estão, de um lado, os EUA, com sua histórica posição tutelar da Europa, sua aliada preferencial, sempre dependente do gás russo e do celeiro ucraniano, e, de outro, a Rússia, que parece estar reavaliando sua aspiração de retornar à sua posição interventiva no Leste, tendo em vista o quadro de reações internacionais. 

Os fatores que envolvem a crise da Ucrânia demonstram, todavia, que a sociedade internacional está diante do maior desafio à estabilidade europeia no século 21.  Em nível econômico destaca-se o interesse europeu em controlar o fértil solo ucraniano, bem como a base industrial, a infraestrutura gasífera e o cabedal científico e tecnológico do país, especialmente nas áreas nuclear e espacial (este último objeto de relevante parceria com o Brasil). 

Em nível estratégico o risco da interveniência militar russa evoluiu positivamente, mas a possibilidade de a Rússia sufocar Kiev, a velha capital do Império, ficou bastante remota, não apenas devido a eventual resposta da Europa, especialmente de natureza política, mas também dos EUA, autoproclamado guardião do mundo democrático.  

O novo presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, por outro lado, reconhecido poderoso empresário na área de alimentos, defensor extensivo da negociação política com a Rússia e os revoltosos do Leste, da unidade territorial, haverá de preservar-se de combate e provocação terrorista, inclusive para viabilizar a aproximação com a União Europeia.  Na articulação destes fatores estaria o segredo da estabilidade futura da Ucrânia, paradoxalmente na expectativa de que os interesses aparentemente divergentes traduzam a sua dimensão de convergência. 

Nesse mosaico de interesses a preservação da integridade territorial da Ucrânia somente será alcançada a partir de um acordo de equilíbrio entre os próprios atores ucranianos, principalmente após o referendo popular, que, de forma quase unânime, legitimou a vinculação da Crimeia à Rússia, e a eleição da Presidência (54%) realizada no dia 25 de agosto, que pelo que se verifica poderá deter o processo de “crimealização”, uma alternativa do Leste russo fronteiriço, mas uma tragédia para a Ucrânia.  

Outrossim, uma ação das instituições internacionais, em apoio à Presidência eleita, ONU adiante, também é diplomática e necessária. Mas o que acontecerá se esse acordo restar inviável?  Até mesmo porque ali já está a Otan, guardiã militar do Ocidente, os milicianos (ainda remanescentes) com o apoio eventual dos russos, a não se confirmar as intenções retóricas de Vladimir Putin, os tanques e aviões ucranianos e as tropas partisans sublevadas.  Finalmente, estamos diante de um estado mobilizado para o combate, mas todas as esperanças estão no presidente eleito Poroshenko, político habituado a lidar com grandes temperaturas, não apenas pela sua origem profissional mas, também, evitando uma “guerra quente”, como falava Carl Schimitt, jurista alemão dos anos 1930-1945, quando da própria expansão alemã para o Leste.  

Os senhores do martírio e da guerra, no entanto, sabem que não existe Ucrânia sem a Crimeia, assim como o seu entorno territorial vive do Mar Negro e do Mar de Azov, para se afirmar, também, que as portas abertas da Rússia, desprezadas as geleiras bálticas e árticas, para o ocidente mediterrâneo estão para estes mesmos mares que circundam a Crimeia. 

* Aurélio Wander Bastos é professor titular do Iuperj e da UniRio; 

** Lier Pires Ferreira é também professor do Iuperj, do Ibmec e do CP2. 

  

Tags: aberta, aurélio, coluna, lier, Sociedade

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