Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Sem ação para o meio ambiente

Cláudia Gonçalves*

Todos os anos, no dia 5 de junho, comemoramos o Dia do Meio Ambiente. É uma data que nos traz uma lembrança para o que realmente nos importa: a vida. Todos os anos, neste dia, relembramos a importância da ecologia e do meio ambiente para as nossas vidas.

Este dia, entretanto, é apenas uma lembrança.  É apenas um dia.  Uma lembrança importante, sem dúvida.  Porém, mais importante ainda é a ação para preservarmos a vida como um todo. Não é apenas um movimento da moda ou mais uma forma de se ganhar dinheiro.

Vivi, outro dia, um triste episódio que me fez modificar o planejamento da nossa empresa para esta data, sempre tão importante, com nossa presença anual em algum evento ligado ao tema.  Um conhecido militante da natureza, em prol da vida e do planeta, me surpreendeu quando me respondeu a uma pergunta sobre algum plano de ação para o dia 5 de junho.  Respondeu-me assim: “Vou dormir o dia inteiro. 

Nunca esperaria tal resposta da parte de uma pessoa com o seu papel como ambientalista. Confesso que foi um banho de água fria nos meus propósitos e, consequentemente, nos de nossa empresa. 

Percebi uma amarga revolta em sua resposta, mas alguma coisa insistia em me querer fazer aprofundar na análise.  Refleti, por um bom período, sobre o que aquela frase poderia significar. Pensei que a resposta queria dizer que o Dia do Meio Ambiente fosse apenas um dia e nada mais. Nada demais.  Que deveríamos nos preocupar o ano inteiro. Todo o tempo. E não apenas naquele dia.

Essa foi a primeira coisa que me veio à mente.  Depois, pensei que o militante já estava cansado da militância e já havia (compreensivelmente) perdido as esperanças em meio ao que se tornou a luta por tudo o que se refere à melhoria de vida, da vida.  Com tanta coisa voltada para o superficial, para o supérfluo, as ações acabam se perdendo de seus princípios, das suas bases, das suas causas.

Inacreditável como qualquer boa intenção e boa ação é transformada em alguma forma de violência (que vai de encontro à própria vida como um todo); ou transformada em uma forma de se ganhar dinheiro sem ética (que é também violenta e contra a vida); ou acaba se voltando a interesses políticos ou pessoais!

Havia pensado em fazermos alguma ação que pudesse contribuir de forma mais eficaz junto ao que acredito ser um planeta melhor, uma vida melhor.  Concluí que algum militante experiente ou alguma ONG voltada ao assunto pudesse ajudar neste trabalho ou pudesse contar com a ajuda da nossa empresa.  Essa era a proposta.  E eu recebi uma resposta que me orientou a agir exatamente como faço agora: “não haverá ação de meio ambiente, este ano, como forma de protesto a tudo o que aí está. Mas nosso protesto é silencioso. Sem alardes. É um protesto interno, uma pausa para reflexão nossa”.

O Dia do Meio Ambiente é importante.  As ações são mais importantes.  A consciência, essa, sim, é importantíssima.  A consciência crítica então, fundamental.  Por isso, este texto.  Por isso, este desabafo.  Queremos cumprir nosso calendário de eventos sempre, em todos os anos, mas precisamos entender do que estamos falando, com o que estamos tratando. Precisamos nos reconhecer como cidadãos ativos no processo de transformação da sociedade para uma sociedade melhor. 

Meio ambiente não é só ecologia.  Meio ambiente envolve tudo o que nos cerca: natureza, convívio entre seres vivos, sociedade, saúde, educação, cultura, segurança e valores como dignidade e ética, acima de tudo.

Fica aqui este desabafo como minha pequena contribuição para o Dia do Meio Ambiente.  Não estamos aqui apenas para nos revoltarmos com o que aí está e muito menos para usarmos de assunto importante apenas para fazer marketing.  Precisamos encontrar o caminho para as soluções, para a realização.  Lembrando que vivemos em um mundo com ideais os mais distintos, muitos deles com dupla intenção, atendendo a interesses diversos. 

Pesquisar, ter acesso ao conhecimento e transmiti-lo para o bem do meio ambiente, para o bem de todos nós, em nossas vidas e nossas ações do dia a dia já é um bom começo.  Um choque de educação e cultura também.

Continuamos com esperança e buscando fazer a nossa parte, dentro do possível, ainda que pequenino grão de areia diante da imensidão desse universo sem fim.

* Cláudia Gonçalves é diretora executiva da Casa da Empada.

Tags: aberta, claudia, coluna, gonçalves, Sociedade

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