Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Educação do saber

Rosineia Oliveira dos Santos*

Embora isso esteja esquecido, o caminho para a inteligência passa primeiro pelas mãos, pensamos para ajudar as mãos, e delas nascem as perguntas. Da cabeça nascem as respostas. Se a mão não pergunta, a cabeça não pensa.

Rubem Alves dizia que “os laboratórios mentem aos adolescentes” e continuam “para que a ciência se faça em qualquer lugar, ela só precisa de duas coisas: olho e cabeça. Assim, a primeira tarefa da educação é ensinar a ver e ensinar a pensar”.

Nas palavras de Roland Barthes, “há um momento em que se ensina o que se sabe...”. E o curioso é que esse aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.

Não é coisa que eu tenha inventado. Foi-me ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental deste computador que vive no corpo humano, nas palavras do educador e escritor Rubem Alves: “Só vai para a memória aquilo que é objeto do desejo”. 

Compreende-se então o que Barthes tenha dito sobre a ciência “seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deverá chegar o tempo quando se ensinará o que não se sabe”.

Miguel de Unamuno dizia que “saber por saber é desumano”. Ou Ferenczi, um dos pais da psicanálise: “Tal conhecimento é um produto da morte, manifestação de insensibilidade e, portanto, manifestação de loucura”.

É preciso voltar ao jardim para fazer ressuscitar a educação e, se é verdade, como sugeriria o matemático Polya, que a solução de todos os problemas tem de começar do fim, que nos puséssemos a pensar, em que tipo de ensino temos que ter para produzir coisa tão bela. Espalhar no ar, num orgasmo de amor, as nossas sementes...?

O pensamento é como a águia, que só alça voo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe, não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas.

Concluo com a belíssima frase do educador Rubem Alves:  “É preciso esquecer-se do aprendido a fim de poder lembrar daquilo que o conhecimento enterrou. 

Pensem!

* Rosineia Oliveira dos Santos, professora no complexo de ensino Andreucci, é especialista em psicologia organizacional. - olisanta@gmail.com

Tags: aberta, coluna, rosineia, Santos, Sociedade

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