Jornal do Brasil

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Água: a ressurreição do volume morto

Rubem Porto e Marco Palermo*

A utilização de volumes inativos constituem estratégias usuais para a administração de crises. No Ceará, a medida socorreu o sistema que abastece a Região Metropolitana de Fortaleza, que passava por crise semelhante à de São Paulo.

No caso do Sistema Cantareira, os volumes mortos nos reservatórios de Jaguari-Jacareí, Cachoeira e Atibainha situam-se em cotas altas (cerca de 26 m acima do fundo, o que corresponde a um edifício de oito andares) e não existem razões técnicas ou ambientais que impeçam seu aproveitamento. O bombeamento nos reservatórios totalizará cerca de 200 milhões de m3, o que corresponde a aproximadamente 22,5% do volume útil e garantirá sobrevida importante ao sistema.

Por essas razões, algumas informações divulgadas na mídia merecem ser esclarecidas sobre as consequências da utilização do volume morto. São elas: 1) após o bombeamento do volume morto ainda restarão cerca de 200 milhões de metros cúbicos nos reservatórios; 2) não há risco de o bombeamento revolver sedimentos, as profundidades são muito grandes, e as bombas, flutuantes, estarão captando água em local distante da superfície do reservatório; 3) lagos, como os do Sistema Cantareira, recirculam verticalmente e carregam oxigênio das camadas superficiais para as mais profundas; 4) há mais de 40 anos a qualidade das águas das bacias dos rios Atibaia, Jaguari e Piracicaba é monitorada pela Cetesb, desde a década de 70 (http://www.cetesb.sp.gov.br/agua/aguas-superficiais/35-publicacoes-/-relatorios), e nunca foram apontados problemas causados pelas descargas imediatamente a jusante das obras; e 5) as reservas do Cantareira são de aproximadamente 10%, o bombeamento as elevará a aproximadamente 33% (322 hm3).

Tal reserva deverá ser suficiente para garantir o abastecimento até a próxima estação chuvosa desde que as medidas de gestão de demanda tenham continuidade e, em caso de necessidade, sejam aprofundadas. A utilização do volume morto é necessária porque é a única medida capaz de aportar tal quantidade de água, a curto prazo. Entretanto, não é medida a que se possa recorrer com frequência, e uma vez superada a crise é essencial que as instituições do setor revisem suas estratégias para enfrentar estiagens futuras, semelhantes à que vivemos hoje.

Nos tempos de Quaresma precisamos refletir sobre nossas ações passadas e nossas atitudes com relação ao futuro. A ressurreição do volume morto foi necessária, mas não pode ser renovada a cada ano, a exemplo do que ocorre na fé cristã.

* Rubem L. Porto é professor da Escola Politécnica da USP; e Marco Palermo é doutor em engenharia de recursos hídricos por essa escola. 

Tags: aberta, coluna, Porto, rubem, Sociedade

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