Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Greves, greves, greves por todo lado!

Eduardo Paparguerius*

Dezenas de milhares de trabalhadores estão em greve ou em campanha sindical. Professores, garis, engenheiros, motoristas, policiais, médicos, aeroviários, operários de diversos setores, nossa cidade e todo o Brasil vivem uma onda de greves que está alterando a rotina das pessoas, gerando problemas para o funcionamento das cidades e um estresse geral, não apenas nos envolvidos diretamente nos movimentos mas na população inteira. Será que todas as categorias profissionais escolheram as proximidades da Copa do Mundo para apresentar suas reivindicações de caso pensado? Bem, pode até ser que o Mundial de Futebol seja usado para dar maior visibilidade às reivindicações classistas, e talvez o clima geral de protesto na sociedade contra os gastos absurdos no Mundial tenha animado muitos grevistas. Mas eu penso que a questão é bem mais profunda.

Chamo a atenção do leitor para uma característica recorrente em muitas dessas greves que sacodem o país. Assim como os rodoviários, os garis, os operários da construção civil, os movimentos foram deflagrados e conduzidos por grupos de trabalhadores de fora da estrutura sindical. Os sindicatos reconhecidos pelo Ministério do Trabalho firmaram acordos com os sindicatos patronais e foram solenemente ignorados pela sua base associativa, e as novas lideranças demonstraram maior representatividade que os dirigentes constituídos.

A reorganização do movimento sindical brasileiro, capitaneada pelos metalúrgicos do ABC paulista, foi um componente importante na reconstrução da ordem política e social após os anos de chumbo. Desnecessário lembrar que o partido gerado nesse movimento governa o país há mais de uma década, e o rouco e barbudo líder de suas greves é hoje a maior liderança política do país. Contudo, o conforto trazido pela administração de estruturas poderosas e verbas substanciais criou um progressivo distanciamento dos dirigentes sindicais de sua base. Uma burocracia sindical se encastelou no poder das entidades, criando centrais sindicais e uma estrutura complexa para se perpetuarem no poder, muitas das vezes através de métodos escusos, que vão da fraude em eleições até a pistolagem.

O passo para que esses novos coronéis dos sindicatos iniciassem uma relação promíscua com os sindicatos patronais foi muito estreito. Quem viu na TV o dirigente do sindicato dos rodoviários, com um terno muito bem cortado, dizendo que os grevistas eram terroristas contra a Copa e que já tinha firmado e acertado tudo com o Rio Ônibus, entendeu tudo. Nos últimos anos assistimos à formação de um sindicalismo de práticas questionáveis. Manifestantes tangidos como gado e movidos a quentinhas, quando não a dinheiro vivo. Conchavos a portas fechadas garantindo uma aparente paz social, avalizada por organizações poderosas como a CUT, Força Sindical, etc. O 1º de Maio, antes marcado por lutas dos trabalhadores, foi transformado em um circo, com a distribuição de prêmios no bom estilo dos programas de auditório.

Tudo fluía muito bem enquanto a economia ia bem, mas a elevação do custo de vida está dissolvendo o sonho da nova classe média, e as demandas sociais e econômicas começaram a estourar nas reivindicações trabalhistas, em um novo tipo de movimento sindical que está surgindo. Essas novas lideranças sindicais, barradas pela estrutura pesada e corrompida de seus sindicatos oficiais, estão buscando novos caminhos, as redes sociais facilitaram sobremaneira a articulação entre essas pessoas, que talvez estivessem atomizadas sem a internet para conhecerem-se e comunicarem-se.  A justiça do trabalho, os governos, os sindicatos oficiais  andam batendo cabeça, sem saber o que fazer, tendo que lidar com um elemento que parecia adormecido e distante, e cuja aparição, ainda que fugaz, provoca o mais profundo temor, a vontade da maioria.

O que fazer quando os trabalhadores decidem parar de trabalhar, mesmo estando tudo decidido e combinadinho entre os sindicatos? Como incluir nas negociações e tratativas aqueles que não são comensais? A princípio a reação tem sido aos costumes: tiro, porrada e bombas nas ruas, ameaças de prisão, histeria contrária na mídia. Mas, e se não der certo? E se os trabalhadores resolverem ignorar essa estrutura corrompida e seguirem multiplicando as greves selvagens?

 

* Eduardo Paparguerius, jornalista e artista plástico, é professor. - eduardopapar@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, eduardo, paparguerius, Sociedade

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