Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Niterói, a cidade que perdeu o sorriso

Wander Lourenço*

No último aniversário de Niterói, em novembro, na Igreja de São Lourenço dos Índios, deparei-me com o prefeito do município Rodrigo Neves; e, ao presenteá-lo com a minha Antologia teatral, perguntou-me o alcaide fluminense a respeito da situação cultural da Terra de Arariboia. Como não houve ocasião de responde-lhe por conta dos inúmeros assessores e seguranças, aproveito a oportunidade desta coluna para apresentar algumas sugestões de cultura ao governante municipal. Mediante a crítica e catastrófica situação, assolada pela marginalidade de toda sorte a cercear o direito de ir e vir da população; quiçá, diante de tão caótico quadro de calamidade pública ilustrado pela urgente necessidade de se combater o crime organizado, possa até parecer ao leitor supérfluo, fútil e dispensável pensar-se em educação, cultura, esporte e arte, como instrumento de reabilitação social em defesa da plenitude de cidadania e da dignidade humana.    

Entretanto, o incorrigível cronista, qual um ilusionista e visionário dom Quixote, ainda creio que alguns fatores políticos devem ser apresentados de modo a desenvolver o debate institucionalizado, a começar pela condução da Secretaria de Cultura niteroiense, de vez que não consigo compreender como uma cidade que possui um manancial de educadores, artistas, intelectuais e atletas, do porte de um Sérgio Mendes, Roberto da Matta, Marco Lucchesi, Bia Bedran, Gérson, Cauby Peixoto, Fernanda Keller, Zélia Duncan, Nicete Bruno, Dalto, Ricardo Boechat, Baby Consuelo, Murilo Benício, Leonardo, Ronaldo Bastos, Edmundo, Ana Terra, Os irmãos Grael, Fernanda Young, Byafra, Paula Burlamaqui, Bismarck, Carmem Lcia Negreiros de Figueiredo, Juliana Paes, Elisa Queirós, Arthur Maia, André Marques, Luma e Ísis de Oliveira, entre tantos outros... Não posso admitir que não se convidassem os representantes ilustres da Cidade Sorriso a tomar parte da discussão sobre a implantação de projetos culturais, para vital ressocialização de crianças, adolescentes e jovens à mercê do tráfico de drogas, da bandidagem e afins, por intermédio do esporte, da música, da arte e da literatura. Se eu fosse o prefeito Rodrigo Neves, criaria o Conselho Tutelar de Cultura, para coibir com eficácia as prédicas criminosas, que transformaram Niterói em um campo de guerra, diz que minado pelas resoluções capitaneadas pela inserção das Unidades de Polícia Pacificadora no município do Rio de Janeiro.  

Reunidos os educadores, intelectuais, atletas e artistas, sugiro a criação de um Fórum Cultural para se discutir a instauração de três eventos primordiais para sustentação de um calendário em que se configure o cronograma anual de desenvolvimento humano: o Festival Internacional de Cine-Teatro de Niterói; a Festa Literária de Niterói e o Festival de Música Folclórica. Com a instalação das atividades culturais, a cidade se tornaria apta a instituir a Companhia João Caetano de Teatro e Dança, radicada no Teatro Municipal de Niterói, juntamente com a Escola de Cinema Leila Diniz e o Conservatório de Música Popular Ismael Silva, que seriam construídos para recepção de futuros cineastas, técnicos e instrumentistas. Por este raciocínio, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) abrigaria a Oficina de Educação Artística para Jovens Infratores, além da proposição de um Programa de Sociabilização pelo Circo e Arte de Rua.  

Enfim, são ideias que precisam ser tratadas com atenção, de maneira que sejam levadas a debate público, a fim de se promover a transformação do cenário de violência urbana em prognósticos educacionais e artísticos. Destarte, os habitantes niteroienses apavorados com toque de recolher, assaltos, sequestros-relâmpago e tiroteios, presenciariam o poder municipal se insurgir contra a marginália imigrante ou natural da cidade, com a batuta do maestro que, sem perder a mão do viés escolar, acrescentaria ao aspecto regente uma ópera de possibilidades culturais, de modo a recuperar o sorriso da cidade, que emudeceu em razão de uma arma apontada para sua tradição defendida, com unhas e dentes, por um traço magistral do mais afamado artista de sua história, o mestre Antônio Parreiras, ou por capítulo extraído da obra literária Quarup, de Antônio Callado.         

 *Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa).  - wanderlourenco@uol.com.br           

Tags: . wander, aberta, coluna, lourenço, Sociedade

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