Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

O estudo da pronúncia para aprender um idioma é fundamental

Lilian Simões*

Abra mais a boca. Encoste a língua no dente. Faça um som mais anasalado. Precisa fazer biquinho. Quem já passou por um curso de idiomas certamente já ouviu essas e outras frases clássicas usadas pelos professores para ensinar a pronúncia correta de algumas palavras. Para falar cada idioma, as pessoas usam partes diferentes do conjunto boca, garganta, língua e nariz. É possível emitir sons guturais (formados na garganta), língua no palato frontal, língua na parte de trás do palato ou encostando nos dentes. É fácil perceber também que alguns idiomas apresentam sonoridades mais anasaladas ou não. Cada idioma apresenta alguns fonemas mais frequentes, que podem ou não estar presentes em outros idiomas, o que tornar mais difícil sua pronúncia por um estrangeiro. É o caso do “ão” em português, que vira “om” na boca de muitos falantes de outras línguas.

Falar uma língua com fluência requer que o aprendiz domine fala e escrita, vocabulários e gramática. Muitos estudos tentam determinar quais são as partes do cérebro que estão ligadas ao aprendizado da linguagem, e como uma segunda língua interfere nas suas ações neurais, mas ainda não se chegou a nenhum consenso. No século 19 neurologistas já examinavam pacientes com danos cerebrais para determinar sua capacidade linguística. Descobriram duas regiões no lóbulo esquerdo responsáveis pela linguagem, uma para fala e a outra para compreensão. Mas as pesquisas mais recentes viram que este é apenas o começo e defendem que saber mais de uma língua é benéfico também para as outras atividades cerebrais. 

Mesmo sem pesquisas extensas e equipamentos caros, podemos traçar um claro paralelo entre melhorar a pronúncia e entender ainda mais o idioma. É preciso respeitar as etapas do aprendizado e dar um passo de cada vez. Mas é comum encontrar pessoas que já terminaram seus cursos de inglês, por exemplo, e têm um bloqueio para conversar com alguém de outro país. Este é um problema grave, principalmente para o mercado de trabalho. Uma pesquisa recente, realizada pela consultoria Robert Half, entrevistou 100 diretores de RH de empresas brasileiras, sendo que 90% dos entrevistados afirmaram que a fluência no inglês é essencial na escolha do candidato. Apesar disso, apenas 20% dos profissionais das empresas pesquisadas é fluente no idioma. 

Já vi casos de pessoas que falam sua língua mãe com um sotaque carregado, mas que juram não ter sotaque nenhum. Se isso acontece com nosso próprio idioma, imagine com uma língua nova! Muitas vezes acreditamos que estamos falando corretamente, mas uma leve mudança nos lábios já pode criar palavras diferentes. Para ter uma pronúncia apurada, é preciso ter acompanhamento profissional. Vale investir em aulas específicas para pronúncia, que ajudam o aluno a conversar com mais naturalidade. Além de apurar a fala, o curso serve como um treinamento intensivo para que o aluno se sinta mais à vontade com a nova linguagem.

Acertar na pronúncia de novas palavras também ajuda os alunos a compreenderem melhor o que lhes é dito. Os processos cerebrais envolvidos na aquisição de uma segunda língua certamente estão ligado aos diversos aspectos da aprendizagem, por isso não causa espanto dizer que aprender a falar está totalmente ligado a aprender a ouvir. E nunca é tarde para começar a melhorar. 

Um dos mais respeitados neurolinguistas da atualidade, o alemão Peter Indefrey afirma que é possível sim falar uma língua estrangeira com a mesma desenvoltura da sua língua materna. Apesar de esta opinião não ser um consenso entre os especialistas, estou com Indefrey. Ter fluência em um segundo idioma não é fácil, é preciso estudar muito e praticar sempre. Mas com o treino contínuo é possível, sim, conseguir resultados excepcionais.

*Lilian Simões, é diretora da Essential Idiomas, consultoria brasileira especializada em idiomas para executivos.  

Tags: aberta, coluna, lilian, simões, Sociedade

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