Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Tudo é questão de conceito

Vitor Sapienza*

Recentemente, circulou pela internet um pequeno texto que falava do poder de oratória de um grande líder. No decorrer da leitura, sempre que se enaltecia algum ponto do cidadão, dava-se margem à certeza de que o foco era alguém de grande importância no nosso mundo político atual. Apenas no final, depois de conhecermos tantos detalhes e virtudes do personagem, é que, dominados pelo espanto, ficávamos sabendo quem era o escolhido: Adolf Hitler!

Dentre as suas imensas capacidades, o ser humano carrega uma que sempre ganha destaque quando analisa o seu semelhante. É julgando as ações do próximo que a nossa capacidade de tirar conclusões se manifesta, sempre filtradas pelos nossos parâmetros interiores, aqueles que nos dão o direito íntimo de julgar o comportamento ou a obra alheia.

No ato de julgar, corremos o risco de cometer erros, acertos e até leviandades. A imprensa é especialista nisso e, quando acontece, mesmo com o costumeiro Direito de Resposta, o estrago já pode estar feito, e em muitos casos ele é irrecuperável. O antigo caso da Escola Base, em São Paulo, mostra a intensidade desse prejuízo. Na ocasião, a imprensa, baseada em falsas informações de um delegado de polícia, destruiu a vida de uma família que havia sido acusada de violência sexual contra alunos de uma pequena escola. Quando ficou provado que a acusação era infundada, os estragos físico e moral já haviam acontecido.

Voltemos à internet. Uma mensagem sem fundamento circulou na rede, partindo de determinada cidade do litoral paulista. Nela, o suposto retrato falado de uma mulher que era acusada de estar sequestrando crianças para serem usadas em sessões de magia negra. Um grupo de populares viu alguma semelhança entre uma moradora do Guarujá com a pessoa do tal retrato falado, e partiu para a agressão. E uma dona de casa, mãe de família, foi barbaramente espancada até a morte.

No caso, além do uso indevido de se tirar conclusões, os ditos “seres humanos” voltaram à época da barbárie para fazer justiça com as próprias mãos, como se linchar, matar uma pessoa pudesse significar justiça. Nesse caso, o “poder” de tirar conclusões foi além do inimaginável. Esse “poder” está sempre presente, e se manifesta até nos mais requintados ambientes.

Um exemplo famoso aconteceu durante o pronunciamento do falecido ministro brasileiro Roberto Campos, nos Estados Unidos. Ele falava abertamente da construção da nova capital e foi citando as bandalheiras e desmandos ali ocorridos; usando riqueza de detalhes ele falou do jogo de interesses e dos desvios de recursos, o que chamou a atenção de um famoso dirigente da ONU, ali presente. Ao final, esse dirigente foi cumprimentá-lo, parabenizando-o pela clareza com que “havia falado da construção de Brasília”. Nesse momento, Roberto Campos respondeu: “Está havendo um engano; eu estou falando da construção de Washington!”

Como se vê, o poder de se tirar conclusões pode se manifestar a qualquer momento. O grande problema é torná-lo adequado aos nossos conceitos de certo ou errado.

* Vitor Sapienza é ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo. - www.vitorsapienza.com.br

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Sociedade

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