Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Reverência à universidade

João Baptista Herkenhoff*

A criação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) marcou a entrada do Espírito Santo numa nova etapa histórica. O mesmo fato ocorreu com outras unidades federativas, que foram aquinhoadas com uma universidade federal. Profissionais que forjaram seu espírito nos bancos da universidade foram os anunciadores dos horizontes que se abriam. 

A Ufes não é apenas um patrimônio dos atuais alunos, funcionários e professores, ou de professores e funcionários aposentados, ou de profissionais formados pela universidade. É um patrimônio do povo capixaba. 

A história da Ufes acompanhou passo a passo a história espírito-santense nos últimos sessenta anos. Quando a liberdade foi suprimida no panorama nacional, ali, na Ufes, germinou o grito de resistência. Professores não se submeteram à suposta autoridade dos que podiam submeter  o corpo, mas não eram capazes de alcançar a alma. Nas salas, opunham-se à ditadura, criticavam o arbítrio, mesmo sabendo que as aulas estavam sendo gravadas pela polícia política exercida por um falso aluno. No DCE e nos diretórios acadêmicos das faculdades, heroicos líderes estudantis mantinham acesa a tocha da resistência. 

Tenho título para reverenciar as seis décadas da Ufes como ex-professor e ex-aluno. Neste artigo quero me lembrar do aluno que fui, prestar tributo à minha Ufes. Ingressei no curso de direito assim que completei a idade mínima exigida por lei. Na posição de ex-aluno, desejo homenagear um professor que simbolicamente represente todos os outros. Da mesma forma vou relembrar um colega de turma que igualmente seja o representante dos demais.Para a reverência aos professores escolho Jair Etienne Dessaune, catedrático de direito romano. Que professor dedicado e competente! Era rigoroso com os alunos, mas rigoroso consigno também. Jamais faltava a uma aula. 

Naquele tempo o aluno podia passar de ano ficando pendurado numa matéria. Dezenas de alunos ficavam pendentes com Jair Dessaune por não terem se debruçado com o devido cuidado à face do Corpus juris civiilis.Para homenagear os colegas de turma elejo Demistóclides Baptista, o nosso Batistinha. Já naquele tempo de estudante ele era um líder sindical respeitado pelos colegas ferroviários e temido pelas armas do poder. Batistinha era inteligentíssimo, portador de uma cultura que ia muito além do direito. Era simples, modesto, amigo. Dialogando com ele aprendi muito. Batistinha  entusiasmou-se com o então papa João XXIII, que foi o primeiro papa a exaltar o socialismo numa encíclica. Observando o posicionamento de João XXIII nas questões sociais, com uma surpreendente guinada à esquerda, ele me disse: "Eh, João, você é católico, e eu sou comunista, mas com este papa nós vamos nos encontrar".

 

* João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado e escritor, é livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo. - jbherkenhoff@uol.com.br

Tags: aberta, baptista, coluna, João, Sociedade

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