Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Snuff movies, a morte filmada

Breno Rosostolato*

A manicure Ane Kelly Santos, 26, teria desaparecido no dia 24 de abril passado, segundo informações postadas no Facebook por uma amiga. "Ela saiu no dia 24 de abril para comprar pão e não retornou, a família está muito preocupada", disse a amiga na rede social. Através de uma denúncia anônima, a Polícia Civil encontrou um vídeo que mostra a vítima sendo torturada por mais de três horas por um grupo de pessoas. Três pessoas foram presas no domingo, dia 11, acusadas de assassinar a mulher em Osasco, Grande São Paulo. 

Acreditava-se que ela teria sido assassinada porque roubou um pacote de biscoitos, mas a Polícia Civil de São Paulo desmentiu esta versão. De acordo com o delegado Itagiba Franco, a mulher foi sequestrada em uma padaria em Barueri, torturada e assassinada porque roubou cerca de R$ 27 mil de um dos três presos acusados de participação na morte da manicure. 

No filme encontrado pela polícia pode-se ver a violência e crueldade praticada contra a mulher que foi brutalmente torturada. Conforme relatos dos acusados, a tortura foi uma verdadeira barbárie. Fortes tapas no rosto, coronhadas na cabeça, marteladas na ponta dos dedos, a ponto das unhas quebrarem e caírem. Nos machucados, os torturadores colocavam sal, aumentando ainda mais a dor e o sofrimento da vítima. Foi filmado ainda o momento do enterro do corpo, mas os policiais não sabem dizer se a mulher estava viva ou já morta. 

O delegado relatou ainda outros trechos do interrogatório com suspeito em que ele diz indignado que ficou ainda mais bravo porque ela (a vítima) não chorou durante a tortura. Ela não reagiu.  

O que chama a atenção, além da atrocidade feita contra a mulher, é a filmagem. Com que intuito uma pessoa filma uma coisa dessas? Por prazer? Para se divertir depois assistindo e comendo pipoca? Isso me remete a outro vídeo semelhante, não apenas pelo registro com a câmera de celular mas também pela violência cometida e imagens estarrecedoras, que causaram comoção social, tamanho o absurdo. 

Uma mulher foi espancada na rua por causa de um boato na internet. Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi espancada por moradores do bairro onde morava no Guarujá, litoral de São Paulo. Imagens de cinegrafista amador mostram a mulher sendo carregada durante as agressões. Aos gritos de “matem ela” e “ela só sair daqui morta”, a mulher recebeu um forte golpe de pau, fatal, isso após ter sido pisoteada por diversas vezes. 

Acompanhando estes dois crimes e as cenas pesadas apresentadas nos vídeos, lembrei-me dos chamados Snuff movies, filmes que fazem parte de um subgênero que mistura terror, pornografia e assassinatos reais. As vítimas destes filmes são sacrificadas depois de protagonizarem atos sexuais e orgias. Por fim, são torturadas e espancadas até a morte. São filmes comercializados no mercado paralelo e que possuem uma procura considerável por pessoas que gostam do conteúdo macabro. Muito se especula sobre estes filmes, e são considerados até lenda urbana.  

A lenda sobre filmes snuff surgiu nos anos 1970, a partir de boatos relacionados à existência de um mercado e de produtores de películas sobre assassinatos reais, em que tanto a produção como os homicídios eram feitos pelo crime organizado. Em 1999, o filme Oito milímetros (título original: 8mm – eight millimeter), tendo Nicholas Cage como protagonista, aborda o tema. O longa gira em torno de um vídeo em que uma jovem foi assassina brutalmente, e tudo parecia verdadeiro. Outro filme acusado de snuff é Cannibal holocaust, lançado em 1980, com direção de Ruggero Deodato. Numa busca pela internet, facilmente encontramos casos de crimes e vídeos de assassinatos caracterizados como, supostamente, Snuff movie. Recordo também dos filmes como a série Faces da morte. Fitas em VHS comercializadas em vários países que mostram vídeos de mortes de várias formas. A série foi vetada em mais de 40 países.

Tirando o conteúdo pornográfico, a violência praticada e, consequentemente, os assassinatos filmados nestes dois crimes relatados anteriormente são verdadeiros filmes snuffs. O prazer não está atrelado ao teor sexual, portanto, explícito, mas a um prazer mórbido, implícito e igualmente doentio. Pessoas agindo com selvageria e expondo todo um aspecto maléfico e perversivo.  Que prazer é este na violência? Uma violência compulsória com a qual a sociedade não pode compactuar nem sucumbir. 

 

* Breno Rosostolato, psicólogo, é professor da Faculdade Santa Marcelina.

Tags: aberta, breno, coluna, rosostolato, Sociedade

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