Jornal do Brasil

Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Em casa

Tarcisio Padilha Junior*

Se é cada vez mais a partir de suas possibilidades internas, e não a partir de situações e necessidades exteriores, que a atividade tecnológica define seus objetivos, estes se tornam  independentes das motivações não propriamente tecnológicas, provenientes de outros setores da cultura.

Por uma espécie de inversão, não é mais o sistema de necessidades que comanda o desenvolvimento tecnológico mas é o devir da própria tecnologia que comanda o sistema de necessidades. Sendo assim, não é mais a cultura que se põe a representar a dinâmica da sociedade.

Quando surge uma tecnologia que parece poder responder a uma necessidade latente (artificial, eventualmente ainda não expressa, mas que é possível tornar-se manifesta e concretizar-se), vemos se produzirem iniciativas de ordem econômica em vista de traduzir essa tecnologia na produção de objetos ou de serviços que respondem a uma demanda potencial facilmente mobilizável.

Hoje, os diversos efeitos da tecnologia conjugam-se para provocar transtornos no domínio cultural. No nível universitário, mesmo aqueles domínios que tradicionalmente se orientavam para a formação humanística são irremediavelmente dominados pela própria proeminência do método tecnológico.   

É todo o plano concreto da existência que de fato se encontra profundamente afetado. Há simultaneamente modificação das redes de comunicação, modificação da estrutura do tempo, transformação das estruturas institucionais, transformação das formas de trabalho (que se tornam cada vez mais condicionadas por uma competência tecnológica adequada), e mesmo uma transformação das formas de lazer (elas mesmas condicionadas pelos equipamentos de natureza técnica).

O cenário tecnológico atinge antigas representações que sustentavam grandes edifícios da cultura. O mundo se apresenta como um feixe de tarefas que podemos organizar segundo planos. O que existe hoje concretamente são valores vividos, modos de ação que devem necessariamente se transmitir ao conjunto do sistema cultural, destruindo as coerências sobre as quais este se estabelecia.

Daí a dúvida sistemática lançada sobre as normas recebidas, a relativização cada vez mais radical de todas as crenças e de todos os valores. Daí o modo de existência em que cada indivíduo encontra-se ao mesmo tempo em toda a parte e em parte alguma, em que, em todo entorno, tudo parece, ao menos potencialmente, poder ser apreendido pelo conhecimento e transformado pela ação.

Mas é pelo conteúdo de uma cultura que a existência eleva-se acima da ordem dos fatos ou formas de vida. É a cultura que confere ao homem um lugar onde ele possa sentir-se verdadeiramente em casa`.

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro. -  tarcisiopadilhajunior@yahoo.com.br

Tags: aberta, coluna, Padilha, Sociedade, tarcisio

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