Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Escrevia para os outros

Larissa Acosta*

A caneta e o papel eram pedras que segurava firme entre os dedos, prontas para serem arremessadas ao mundo.Precisava tirar tudo de dentro de si. Era um ser muito pequeno para suportar o fardo desses sentimentos que pesavam como loucuras em seus ombros.

Escrevia para aliviar. Queria sentir-se vazia, tão vazia que as batidas de seu coração ecoassem no interior de seu corpo. E leve. Mas não o bastante para deixar que a práxis a empurrasse para trás. Escrevia para contaminar.

Gostava de invadir as pessoas com palavras. Queria que elas impregnassem suas roupas, apertassem-lhes a garganta. Alimentava-se da acidez de seus pensamentos, que corroíam as utopias dos outros.  Escrevia para não falar.

Era mais fácil controlar as mãos que a boca. Sentia ânsia de botar para fora todos os causadores dessas náuseas mentais, mas ainda assim precisava zelar por seus segredos e vergonhas. Seus mistérios, na verdade, os queria bem escondidos no fundo falso da gaveta onde guardava os valores que pautavam sua existência. Escrevia para não calar.

Precisava dizer o inegável, manchar essa polidez fingida das pessoas. Quem sabe, dessa forma elas percebessem que precisam se livrar das impurezas que carregam e propagam por aí. Talvez assim, olhassem para si e constatassem que os outros são um pouquinho delas. E que todos somos muito do mundo. Escrevia para os outros.

* Larissa Acosta é cronista.

Tags: aberta, acosta, coluna, larissa, Sociedade

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