Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Mortalidade de empresas: quais os principais fatores?

Paulo Sérgio de Moraes Sarmento*

É motivo justo de preocupação, senão de espanto e indignação, quando vemos as estatísticas sobre a mortalidade precoce das empresas no Brasil. E não há nada no horizonte que nos faça acreditar que esse quadro crônico possa ser revertido. Os motivos são um pouco diferentes de um insucesso para outro, mas, na minha visão, o pano de fundo é igual para todos: o despreparo do empreendedor que entra em um ambiente hostil para negócios e a concorrência que não é pequena para qualquer segmento. Portanto, podemos sintetizar no seguinte trinômio interdisciplinar: despreparo, ambiente hostil e concorrência.

Para cada um desses fatores que compõem o trinômio, observo alguns pontos que precisariam ser erradicados, trabalhados sem descanso, pois reputo serem os principais responsáveis pela mortalidade precoce das empresas.

Este artigo é sobre empresas que fecham com poucos anos de vida, mas o pano de fundo a que me referi acima é tão grave que serve também para todos da sociedade, todas as atividades econômicas, pessoas comuns, trabalhadores e, por que não, profissionais liberais.

1.   Quando menciono o despreparo, não posso deixar de levar em grande conta:

A educação deficiente que temos no país. Poderia até lembrar a nossa herança histórica e cultural se fosse para dar alguma e fraca justificativa, mas o fato é que nada se pode fazer com o passado se não aprendermos com ele. O que está mesmo escancarado e ameaçando de morte a quase tudo que vemos ocorrer à nossa volta é a baixa e péssima escolaridade e a inadequada formação profissional que, entre outras coisas, exclui o indivíduo da informação, do conhecimento, da formação de competências e impede o seu desenvolvimento e o do país.

A inexistência de planejamento e controles gerenciais desde a fase inicial da empresa: o bom e imediatista brasileiro adora pular etapas. Sem dúvida, uma consequência do exposto acima que o leva a começar quase sempre pelo fim e acaba por se surpreender com providências que deveriam ser tomadas no começo do projeto. Planejar um negócio baseado em conhecimento de mercado, análise das condições técnicas, econômicas e financeiras dos sócios, além das exigências operacionais do que se pretende fazer, reduzem os riscos e até mesmo desencorajam abrir um mau negócio.

O descompromisso com a ética, responsabilidade e respeito. O “devo não nego, pagarei quando puder”, “a culpa é do governo” ou “não dou sorte” é mais comum de se ouvir do que se imagina. Claro que é uma questão delicada de se abordar, assim como sabemos que a maioria é bem intencionada e não visa prejudicar ninguém, mas o vale-tudo e o jeitinho são culturais, mesmo quando atenuados pelas dificuldades.

2. Quanto ao ambiente hostil a lista é grande. Só para citar os principais constrangimentos, vejamos:

A política de crédito para investimentos: o sistema financeiro que opera praticamente sem riscos só empresta dinheiro, teoricamente, para quem oferece garantias reais. Limites de crédito são estabelecidos sobre patrimônio, recebíveis, ou renda. Nenhuma ou pouca instituição de crédito patrocina de fato projetos correndo risco sobre o sucesso. Gerente de banco só é consultor para seguros e aplicações. Esse risco fica para os investidores profissionais que, por sua vez, peneiram bem suas opções.

Dificuldade na abertura de capital: as restrições para abertura de capital das pequenas empresas são severas e impeditivas. Em um ambiente menos hostil, isso permitiria a venda de ações que as capitalizariam e as obrigariam a se tornar mais profissionais e competitivas.

A burocracia burra e surrealista que cria dificuldades para vender facilidades. Vício fartamente conhecido e alardeado que só piora com o tempo, levando à corrupção e à inviabilidade de projetos. Mesmo com a tecnologia, parece que pouco avança.

A carga tributária mais alta do mundo, que só explica a imoralidade do sistema, ganância e incompetência dos governos na falta de planejamento, gastos e impunidade que atravancam o crescimento.

A falta de políticas governamentais claras que gera sobressaltos pelas mudanças repentinas das medidas de última hora e sempre paliativas. Faltam planos de desenvolvimento, faltam medidas saneadoras e reformas. Proporcionar ambiente de negócio saudável e propício ao exercício da livre iniciativa é responsabilidade política, como vemos nos países desenvolvidos, e faz com que as chances para o sucesso sejam maiores para todos.

3. A concorrência que sentimos na pele deixou de ser só nacional para ser também internacional. Sinal dos tempos e da globalização progressiva que veio se impondo desde a época dos descobrimentos. Se por um lado toda concorrência é saudável priorizando os interesses do consumidor, por outro torna a guerra mais acirrada e mortal para os despreparados.  Os problemas já mencionados acima interferem diretamente na falta de competitividade porque elevam custos e tempo, o que nos coloca entre os países com empresas de menor produtividade. Grande parte dos investimentos nas empresas tem o seu retorno comprometido, tanto na remuneração como nos prazos ideais, podendo assim chegar ao insucesso e fechamento.

Ainda assim, continua a surpreender, apesar de todos esses pontos negativos, que o número de empreendedores não para de aumentar. O legítimo sonho de muitos por quererem conquistar a sua independência financeira, de levarem adiante os seus ideais, não percebem a venda que lhes cobre os olhos e os conduz a um cruel matadouro de empresas. Administrar hoje em dia, no Brasil, é uma tarefa altamente complexa com exigências de toda ordem, necessidades de competências especiais e de comprovadas vantagens competitivas que desafiam até mesmo os mais preparados e podem facilmente anular o talento e as chances de sucesso.

 * Paulo Sérgio de Moraes Sarmento,sócio da VSW Soluções Empresariais, é economista.

Tags: aberta, coluna, paulo, Sergio, Sociedade

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