Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Rotina sangrenta

Marcos Espínola*

Os sucessivos episódios trágicos no estado do Rio há muito tempo já ultrapassaram qualquer limite, transformando o fato isolado numa assustadora rotina sangrenta. Aliás, devemos ressaltar que nas outras capitais a realidade é a mesma, pois, segundo relatório divulgado recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU), dentre as 50 cidades mais violentas do mundo, 16 são brasileiras. Embora o Rio esteja fora dessa lista, não há o que se comemorar, pois os assassinatos estão acontecendo, os confrontos aumentando e até as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), sendo alvo constante de ações criminosas.

Hoje, no Brasil, dizer que a vida humana está banalizada chega a ser uma redundância. Infelizmente, estamos colhendo o que plantamos desde os anos 80, quando o assunto segurança pública, já naquela época, não recebeu a devida atenção. De lá pra cá, o caos se estabeleceu ano após ano, com o aumento da população, o crescimento desordenado do espaço público (favelização) e o crime se impregnando ferozmente na sociedade. 

Quase a totalidade dos confrontos, seja entre policiais e marginais, seja entre as facções criminosas, têm como causa o narcotráfico, uma “indústria” que movimenta cifras incomparáveis com qualquer outro segmento. Com cerca de 200 milhões de habitantes, o jovem, que representa ¼ desse total, ou seja, mais de 50 milhões de pessoas, se torna alvo fácil dos criminosos.

Muito se fala que ainda somos uma nação jovem, mas, depois de mais de 500 anos, já devíamos ter a consciência de que o pilar de sustentação de uma sociedade é a educação. Chegamos em 2014 a uma posição delicada de um país violento e corrupto. E isso não foi construído da noite para o dia. Foram anos de descaso, e as crianças de ontem se tornaram os jovens e adultos de hoje, vendo a educação cada vez pior e as oportunidades mais escassas. Resultado? Uma revolta aflorada. 

Os ataques às UPPs são, notoriamente, represálias a uma iniciativa louvável do Estado, mas que demorou a chegar. Além disso, veio capenga, pois recuperar o território e expulsar o tráfico era necessário, mas não o suficiente. Junto a todo esse movimento, diversos outros serviços sociais devem ser implantados, como saúde, saneamento básico e, principalmente, a melhoria efetiva da educação. Só assim mudaremos as gerações futuras para que eles possam usufruir de uma rotina melhor e sem banhos de sangue, como a que estamos vivenciando.

* Marcos Espínola é advogado criminalista. 

Tags: aberta, coluna, espínola, marcos, Sociedade

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