Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Para quando a África?

Ricardo Luigi*

Guerra civil no Sudão do Sul. Atentados terroristas em um shopping no Quênia. Mais de 500 mortos, vítimas de perseguição religiosa, na República Centro-Africana. Perseguições políticas na Eritreia. Mais de 300 mortos, principalmente eritreus e somalis, naufragados na costa da Itália. Opressão marroquina no Saara Ocidental. Instabilidade social e política na República Democrática do Congo. Essa é só uma pequena lista de conflitos e mazelas que ainda hoje, em 2014, atormentam a África. E que nos fazem refletir quando se dará uma plena integração africana.

Não se pode dizer mais que a África esteja isolada do sistema global. A integração africana, entretanto, deu-se (e continua ocorrendo) de forma equivocada, exploratória e predatória. Os investimentos em petróleo e minérios, principalmente na costa leste da África Subsaariana, trouxeram bastante dinamismo econômico a países como Gana, Nigéria, Angola e Gabão. O continente cresce rapidamente, mas se transforma lentamente.Embora os recursos naturais explorados sejam africanos, os recursos financeiros vêm do exterior. Seja em forma de ajuda internacional, perdão da dívida externa ou investimentos no setor primário, perpetuando a lógica do “Estado rentista”, subordinando a movimentação da economia à venda de commodities. Hidrocarbonetos, minerais ou produtos agrícolas continuam, em sua maioria, destinados ao exterior, sem promover maior organização da estrutura produtiva interna dos países.

Sem a dotação de infraestrutura necessária e sem a criação de um mercado interno, a África não conseguirá inserir a crescente população jovem. Dados do Banco Mundial indicam que metade da população da África Subsaariana tem menos de 25 anos de idade, e projeta-se que nos próximos dez anos apenas um em cada quatro jovens deve conseguir emprego. E os empregos existentes, em sua maioria, estão/estarão concentrados no setor terciário, em comércio e serviços.

Outro questionamento importante diz respeito à participação da China como principal parceiro comercial em ascensão no continente. Ilustrativo disso é que a nova sede da União Africana, em Adis Abeba, é um edifício de 100 metros que custou 200 milhões de dólares, pagos pela China. Avolumam-se exemplos da participação chinesa, de armas a produtos eletrônicos, da construção de estradas a hidrelétricas.A última reunião de cúpula da União Africana, 22ª. Cimeira, ocorrida entre 21 e 31 de janeiro de 2014 na capital da Etiópia, Adis Abeba, trouxe como um dos principais assuntos a definição de uma nova agenda de desenvolvimento para o continente.  A discutida Agenda 2063 traz metas para que os países africanos encontrem o desenvolvimento almejado até o referido ano. É preciso que se aumente a integração econômica entre os países vizinhos, para se criar uma alternativa às intempéries da economia mundial.

Para quando a África? Esse é questionamento que dá título ao livro do historiador burquinense Joseph Ki-Zerbo, que defende que os africanos devam possuir um desenvolvimento endógeno, o que não pode ser tomado como sinônimo de isolamento. Pois, nas palavras de Ki-Zerbo, o desenvolvimento não é uma corrida olímpica, e prevê uma série de medidas que teme-se não estejam sendo tomadas.

*  Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor universitário e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais. - ricardoluigi@cenegri.org.br

Tags: . sociedade, aberta, coluna, luigi, ricardo

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