Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Médico de olhos

João Baptista Herkenhoff*

Em 7 de maio foi comemorado o Dia do Oftalmologista. É uma habilidade profissional muito antiga. Médicos assírios, fenícios, sumérios e outros do mundo árabe já operavam a catarata dezessete séculos antes de Cristo.  Esta data me é particularmente grata, porque fiz cirurgia de catarata. Provavelmente, muitos leitores, que ainda não alcançaram idade para submeter-se a uma tal cirurgia, estiveram sob os cuidados de um oftalmologista para procedimentos mais simples, ou apenas para uma consulta. 

O médico que me operou foi o doutor Sebastião Leonardo da Silveira. A cirurgia não foi apenas um fato que registrei na agenda. Foi uma aventura existencial. Digo aventura existencial porque provocou um renascimento interior, como vou explicar. Eu pensava que meus olhos estavam bem porque conseguia ler textos em letra miúda. Já anteriormente à cirurgia eu fizera consultas com médicos da área, e os testes eram sempre os mesmos. Consistiam em identificar, num quadro, as letras que iam gradativamente reduzindo de tamanho. Ao final da consulta, era sempre aprovado, não com louvor, mas felizmente aprovado. A prova inequívoca de minha quase cegueira, suportada com a paciência de Jó e só corrigida pela cirurgia, ocorreu na primeira visita de revisão que fiz com o doutor Sebastião. 

Eu estava na sala de espera, aguardando a chamada, que seria feita pela competente e delicada funcionária Lívia, secretária encarregada das cirurgias de olhos. Do lado oposto àquele em que eu me encontrava, surge a figura de uma moça linda, tudo na medida e no lugar certo, ângulos e sinuosidades esmeradas, trajando um vestido amarelo que só realçava sua esplêndida beleza, porque lhe desenhava as formas esculturais. Só podia ser mesmo uma coincidência. Nem a mais sofisticada clínica apresentaria uma figura feminina, a desfilar de um extremo ao outro da sala, para convencer um recém-operado de que sua cirurgia tinha sido um sucesso. Diante daquela cena de esplendor e de vida, que faria Miguel Ângelo ressuscitar do túmulo, só uma frase-interjeição brotou-me dos lábios, dita baixinho a minha mulher, que sorriu, achando graça: “Este médico é realmente muito bom". 

Graças a essa providencial cirurgia, tenho podido prosseguir nas viagens para fazer palestras. Dos estados brasileiros só não fui ao Amapá e a Tocantins. Falei a estudantes, advogados, colegas de magistratura e membros do Ministério Público. De eventos de Igreja tenho participado, especialmente encontros ecumênicos. Com cristãos de diversas denominações, muçulmanos e judeus comungo sonhos de um mundo fraterno. 

* João Baptista Herkenhoff, juiz de direito aposentado e escritor, é livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo. - jbherkenhoff@uol.com.br

 

          

Tags: aberta, baptista, coluna, João, Sociedade

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.