Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Histórias de mãe: um gesto de amor

Roseli Bassi*        

Em meio a botões e rendas, cresci ao lado de uma máquina de costura ouvindo histórias da infância de minha mãe em Minas Gerais.  Como era difícil e ao mesmo tempo surpreendente imaginar minha mãe criança! Afinal, eram histórias de uma época em que ela nem sequer sonhava com a maternidade. Graças a esses momentos, tive oportunidade de construir minha identidade social e cultural. Desenvolvi minha linguagem, ampliei meu vocabulário, formei meu caráter, e me preparei para as respostas às questões que a vida mais tarde viria me fazer, além de ir buscar nos livros mais e mais historias. 

Os anos se passaram, a menina que ouvia histórias da mãe passou a ter as suas próprias histórias quando recebeu em seu colo um pequenino ser de pele rosada.  Nascia minha primeira filha, Vanessa. 

Certo dia, cheguei em casa à noite, depois de um trabalho de treinamento prático de voluntários do Instituto História Viva, no Hospital Erasto Gaertner. Abri a porta da sala pensando em comer algo, pois a fome havia chegado junto com a exaustão. Aquele tinha sido um dos dias mais difíceis, pois a dor e sofrimento das crianças com câncer hospitalizadas me deixaram especialmente emocionada. O esforço que elas faziam para acompanhar as histórias era notável. Algumas nem ao menos tinham forças para esboçar uma reação. Eu mal colocara o pé para dentro de casa quando escuto uma voz vinda do quarto do meu filho: mãe, conta uma história pra mim? Claro que nem lembrei mais da fome, e fui direto contar para ele a mesma história contada para as crianças do hospital. E o mais incrível de tudo foi sua reação. Seus olhinhos brilhavam, seu sorriso no rosto era lindo, como a dizer: “Valeu a pena mãe, obrigada em nome de todas as crianças, a sua história é incrível!”. 

A cada novo dia estamos escrevendo nossas histórias. É importante que como mães, pais e avós contemos essas histórias para as crianças. Sejam histórias de nossa vida ou inventadas, pois estaremos compartilhando valores, exemplos e inspirando sua formação. É um gesto de amor. 

Enquanto escrevo este artigo, toca a campainha do meu apartamento e escuto a voz da minha filha ao interfone: “Mãe, tem TCC na faculdade, e esqueci de avisar. Você pode ficar com a Sophia?” Oba, hoje vai ter festival de histórias!". 

Neste Dia das Mães rendo minha homenagem também a todos os filhos: biológicos, adotivos, de casais tradicionais, de casais modernos e os que adotam mães e avós, pois com eles nós temos a gratificante oportunidade de escrever e contar nossas histórias vivas.

* Roseli Bassi é fundadora do Instituto História Viva que, desde 2005, trabalha para transformar ambientes de dor e sofrimento por meio da literatura oralizada. Através deste trabalho, Roseli tem incentivado a leitura, a educação e a cultura brasileira. Em quase oito anos de existência, a entidade já formou mais de 900 voluntários na arte de ouvir e contar histórias. Atualmente, o Instituto mantém parceria com 12 instituições e assiste a mais de 14 mil pessoas por ano.

Tags: aberta, bassi, coluna, roseli, Sociedade

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