Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Maternidade e trabalho

Wanda Camargo*

A maternidade foi, durante milênios, algo inevitável, inescapável, complicado e perigoso. Afora os riscos da gravidez e do parto, o filhote humano precisa ser protegido e alimentado por tempo muito maior que o de outras espécies, demandando maior atenção da mãe e tornando-a mais dependente de proteção e auxílio.

Mulheres, assumindo procriação e serviços domésticos, foram relegadas à condição subalterna, embora, se entendermos como trabalho toda a atividade produtiva ou criativa com um fim socialmente útil, essas funções estão entre as mais dignas e necessárias. Hoje, para parte delas, a maternidade é o que deveria ser uma das melhores coisas da vida: escolha, e não obrigação.

Porém, toda opção implica em abrir mão do todo ou de parte de outras coisas, e, apesar do aparente auxílio da tecnologia e protagonismo feminino, pesquisas em países emergentes têm constatado progressivo crescimento no número de horas trabalhadas pelas mulheres, principalmente daquelas portadoras de diplomas universitários. Estudiosos da questão têm divulgado, com apreensão, os dados do IBGE, em sua Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar, mostrando que o número médio de horas femininas semanais trabalhadas vem tendo paulatino acréscimo, enquanto o masculino diminuiu.

Não é fácil para nenhuma mulher ter uma vida profissional bem sucedida, mas a área mais tradicional de atuação feminina, a docência, ainda representa uma das mais facilitadas, pela maleabilidade nos horários. Em muitas outras é quase impossível conciliar casa, filhos e carreira, o que é um problema, infelizmente, da maioria dos países.

Há pouca noção da importância social da maternidade pelos legisladores e empregadores, assim como do tempo necessário para criar filhos saudáveis, física e mentalmente, que não venham a sobrecarregar o sistema público de saúde no futuro. A mãe como cuidadora, como primeiro contato com o mundo, como referência cultural, não é fator considerado tão essencial, exceto se renuncia a uma carreira para dedicar-se apenas ao lar.

Trabalhos de meio período são poucos e desvalorizados, fazendo com que muitas mulheres tenham que optar entre família e trabalho, o que é injusto. Algumas mulheres são felizes sem filhos, outras sem uma ocupação remunerada, mas a maior parte delas gostaria de poder conciliar. Creches quase inexistentes e a falta de uma política efetiva para o sexo feminino, certamente atrapalharam muitas pessoas talentosas e que teriam dado ótima contribuição social. Compartilhar com o companheiro os cuidados com a casa é raro, entretanto seria importante se efetivamente considerássemos o trabalho feminino, fora ou dentro do lar, como possibilidade de crescimento social e econômico.

Significativo percentual de mulheres tem se afastado da maternidade, ou, no caso de terem filhos, renunciado aos poucos direitos adquiridos na área trabalhista, por medo de substituições ou perda de oportunidade, o que implica em precariedade para aquelas que gostariam de exercer ambas as funções, mãe e trabalhadora.

Novas pensadoras da condição feminina discutem mais, na academia e na mídia, desde a necessidade da flexibilização da jornada de trabalho, o tempo de aleitamento, as oportunidades do mercado de trabalho, até os desafios da liderança e da vida familiar. Isso prenuncia melhoria nas ofertas salariais – ainda muito distantes da masculina – e a possibilidade de diminuição do tempo efetivo dedicado ao trabalho, aumentando aquele voltado para a família e o lazer, para possível melhoria da saúde e decréscimo da violência.

 

*Wanda Camargo, educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).

Tags: aberta, camargo, coluna, Sociedade, wanda

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