Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

O trem quebrou

Célio Pezza*

Muitos já viram as cenas de um trem quebrado no Rio de Janeiro ou em São Paulo e centenas de pessoas andando pelos trilhos indo para o trabalho ou para a casa, revoltados, desiludidos, mas resignados, pois, como sempre ouviram dizer, as coisas são assim, aqui, no Brasil. Um ou outro grupo mais exaltado quebra algum vagão, destrói alguma coisa e coloca sua raiva para fora, mas a grande maioria simplesmente caminha, meio sem rumo, pelos trilhos do trem quebrado. É como uma boiada, seguindo para o matadouro, sem saber ao certo o que esperar.

Sentem que algo está errado, que as coisas deveriam ser diferentes, mas não conseguem ver exatamente o que acontece e simplesmente vão caminhando. É triste ver tanta gente andando sem rumo, tentando chegar a algum lugar, a pé, no meio das pedras e do barro, pois o trem que deveria levá-los está quebrado. 

Em outro ponto da cidade, a história se repete, mas no lugar de trens parados vemos ônibus ardendo em chamas. O povo, da mesma forma, anda de um lado para o outro sem saber o que fazer. De repente, no meio da multidão, se ouvem tiros, e alguém cai atingido por uma bala perdida. Mais um número na estatística cruel nesta terra sem lei nem ordem. O povo vai para um lado e para o outro, mas todos os caminhos levam a nada. Mais tarde, assistem na TV às notícias de todos os dias: tragédias, mortes estúpidas, caos no trânsito, corrupção e roubos por todos os lados, doenças e ameaças de falta de água em breve, pois a represa está secando.

No horário político, as mesmas caras deslavadas sorrindo e dizendo que seu partido é aquele que pensa e trabalha pelo povo. Todos os candidatos são honestos, íntegros e defensores da lei e da ordem e progresso. Todos pedem seu voto e prometem as soluções para tudo.

O povo, cansado, vai dormir, não sem antes rezar para seu santo preferido e pedir para que nunca fique doente e morra sem atendimento em um hospital qualquer, pedir para não ser atingido por uma bala perdida, pedir para que não ponham fogo no ônibus e que o trem não quebre amanhã, pedir para chover um pouco para encher a represa, mas não muito, para não inundar sua casa como sempre acontece, pedir para que seu filho consiga uma vaga na escola do bairro e que possa sair da ignorância em que insistem mantê-lo, pedir para que o traficante da esquina não perturbe sua família e que a polícia não o confunda com um marginal.

No final de sua oração, ele ainda pede desculpas por ter pedido demais. Afinal, ele é só um cidadão ignorante e sonhador deste Brasil, que não sabe o que fazer, enquanto sua vida se acaba.

*Célio Pezza, escritor, é autor de diversos livros, entre os quais, 'As sete portas','A palavra perdida' e, o mais recente, 'A nova Terra - Recomeço'. - www.facebook.com/celio.pezza

Tags: aberta, celio, coluna, pezza, Sociedade

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