Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Guia de leitura sobre Machado de Assis

Wander Lourenço*

Ao contrário do que se deu com Guimarães Rosa, Machado de Assis arrebatou-me vagarosamente como quem se embriaga de um bom vinho, cálice por cálice, até se tornar apto a degustar o cerne da matéria-prima da videira, que se instaura por uma experiência de envelhecimento em barril de carvalho. Desta feita, tornei-me leitor deste genial escritor que, no romance, se constrói mais por sua imperfeição do que por um domínio pleno do discurso narrativo intrínseco ao gênero, qual o seu mentor intelectual, Eça de Queiroz. Curiosamente, enquanto se ateve à influência do mestre português, com a publicação de suas primeiras obras literárias Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), se bem que seja a fase realista e não romântica como atestara José Veríssimo, Machado não conseguiu sequer superar o "chefe de nossa literatura", consoante Joaquim Nabuco, o José de Alencar de Lucíola (1862) e Senhora (1875).   

O ficcionista Machado de Assis só iria se transformar no maior escritor brasileiro de todos os tempos, quando, em 1881, publica a obra-prima Memórias póstumas de Brás Cubas. Entretanto, para evitar os piparotes do defunto-autor, neste guia de leitura aconselha-se que se inicie a experiência machadiana por dois de seus mais afamados registros literários: A cartomante e Missa do galo. Após cumprir o rito de iniciação, o leitor-aprendiz estará apto a enfrentar outras narrativas de menor fôlego do autor, sem ordem cronológica de publicação, tais como: Miss Dollar, da primeira fase que demarca a verídica obsessão por viúvas, posteriormente o hábito desaguará em Nelson Rodrigues; Teoria do medalhão, que deve ser lido em diálogo com O homem que sabia javanês, de Lima Barreto; Pai contra mãe e O caso da vara, por analogia de identificação temática; Uns braços; e o formidável Decadência de dois grandes homens. 

A partir do processo de aprendizagem a respeito das abordagens psicológicas do espírito humano – lembre-se de que Eça dizia que o realismo era a anatomia do caráter –, o leitor se habilitará a enfrentar o magnífico A Igreja do Diabo; O espelho; na linha do estilo de Allan Poe, A causa secreta e Um esqueleto; O enfermeiro; e, sobretudo, O alienista, memorável incursão ao espírito humano. Ao conhecer a fabulosa história de Simão Bacamarte e a sua Casa Verde, creio que já podemos adentrar a mais genuína criação do autor, considerada o divisor de águas da prosa de ficção pátria, pois a literatura nacional pode ser dividida em antes e depois das Memórias póstumas... É impressionante como o extraordinário livro irá desestabilizar, no âmago do Realismo/Naturalismo, a proposição de verossimilhança e linearidade do movimento idealizado por Gustave Flaubert, Stendhal e Zola. 

Em paralelo com as reminiscências de Brás Cubas, sugiro que se coteje com A relíquia (1887), como constatação de que o estilo de Machado no momento subsequente influenciará Eça de Queiroz. Feita a comparação entre o mestre lusitano e o gênio fluminense, enfim indico a leitura de Dom Casmurro, mesmo antes dos Quincas Borba (1891), Isaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), que, sem medo de equivocar-me, afirmo que são obras menores diante dos clássicos consagrados Memórias póstumas de Brás Cubas (1881); e Dom Casmurro (1899). Neste romance de fim de século, deparamo-nos com a fórmula mais básica de um enredo: dois companheiros de futuro ofício (o sacerdócio), Bento Santiago e Escobar, e uma atraente dama casadoira, Maria Capitolina.

Subjugada a resistência materna com o argumento da ausência de vocação sacerdotal, Bento casa-se com Capitu; e, no velório de Escobar, apanha em flagrante a esposa a desfiar um rosário de lágrimas em silêncio, diante do cadáver do antigo amigo de seminário. O episódio torna-se a justificativa mais plausível para a desconfiança do suposto marido traído; todavia, ao contrário das heroínas desde a Senhora de Rênal, Emma Bovary até Ana Karenina e Luísa d’O primo Basílio, ao contrário da acusação de costume sobre a deslealdade feminina, magistralmente, instaura-se em Dom Casmurro a dvida de adultério. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? 

 

 *Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - Wanderlourenco@uol.com.br          

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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