Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Vivendo bem com Parkinson

Vanderson Carvalho Neri*

No ultimo mês de abril, lembramos, pela divulgação da mídia, de uma antiga doença já conhecida por todos e que tem acometido cada vez mais pessoas em todo mundo: a Doença de Parkinson. Isso, porque é no mês de abril que foi instituído o Dia Mundial de luta contra a doença, na mesma data do nascimento do seu primeiro descritor, o médico inglês James Parkinson.

Já se vão quase duzentos anos desde a descrição original, em 1817, quando ainda nem se imaginava o que estava por detrás dessa enfermidade. A descrição, tão bem detalhada, feita por James Parkinson, despertou interesse de outros médicos que prosseguiram no estudo dessa doença até os dias atuais. Passados dois séculos, muita coisa mudou, sobretudo no entendimento da gênese da doença e nos tratamentos para os principais sintomas.

Sabe-se atualmente que essa condição ocorre por deficiência de uma importante substância chamada dopamina, que está envolvida no controle dos atos motores voluntários. Por isso, os principais sintomas são as alterações de movimento: tremores, enrijecimento da musculatura, alteração da marcha e equilíbrio, dentre outros; trata-se de uma doença progressiva, degenerativa, de evolução normalmente arrastada. O único equívoco de James Parkinson foi afirmar que a doença não atingia o intelecto, hipótese descartada hoje, uma vez que também vemos associados casos de demência na história evolutiva dessa síndrome (e um importante complicador).

Embora não exista cura para essa condição (como em todas as doenças degenerativas), existem tratamentos clínicos, medicamentos e trabalhos de reabilitação que podem prolongar a atividade motora, contribuindo para uma melhor qualidade de vida e maior sobrevida do paciente; hoje, vive-se muito mais e melhor com Parkinson do que há vinte anos por exemplo. Muito avançamos, e ainda estamos avançando no diagnóstico e tratamento da doença, basta olhar o número de produções cientificas que são publicadas todos os meses sobre o assunto no mundo todo. Isso retrata o interesse da comunidade científica em desvendar muitos dos mistérios envolvidos na gênese da doença, e existe razão para isso: a doença de Parkinson é a segunda doença neurodegenerativa mais prevalente no mundo todo, só perdendo para a Doença de Alzheimer, outra condição igualmente devastadora para o cérebro, para o indivíduo e para a sociedade.

Só no Brasil acredita-se que existam mais de duzentos mil parkinsonianos, pelo menos esses fazem parte da estatística, mas certamente existem muitos outros ainda dispersos pelo interior do país e que não foram “contados“ no último censo. Isso demonstra que temos uma população significativa de pacientes, fato que repercute com grande impacto real na sociedade, por se tratar de uma patologia incapacitante para as atividades laborativas, com repercussão para o ambiente de trabalho e para a família do paciente, que tem sua rotina modificada diante da presença de um parkinsoniano.

Patologias degenerativas como a Doença de Alzheimer, Parkinson, Esclerose Múltipla não são tão prevalentes como a hipertensão arterial, diabetes e doenças cardiovasculares por exemplo, mas não são menos importantes no contexto da saúde pública. Estamos em um país em envelhecimento, e a tendência natural é o aumento gradual dessas condições degenerativas a cada década que avançamos, por isso é importante estarmos atentos a essas condições. Muito se fez, mas ainda há muito o que fazer para melhorarmos a qualidade de vida, o acesso ao atendimento aos centros de referência e tratamento especializado, a garantia aos direitos legais desses pacientes e de seus cuidadores. Atender às necessidades dessas pessoas é atender às necessidades da população como um todo, sempre carente por políticas públicas que amparem e ofereçam o que se tem de direito.

A batalha para viver melhor com Parkinson e outras doenças incapacitantes não fica restrita só ao mês de divulgação da doença, quando esta se torna mais visível na imprensa e redes sociais; trata-se de uma tarefa constante de todos nós enquanto sociedade atuante e participante da realidade em que vivemos. Fazemos parte de um novo ciclo que deve não só cobrar das autoridades competentes mas também se envolver diretamente no debate e nas ações sobre as necessidades mais prementes da nossa sociedade. Essa também é uma forma viável de vivermos mais e melhor em comunidade, que é o que de fato somos.

 

* Vanderson Carvalho Neri é médico neurologista do Centro de Doença de Alzheimer e Parkinson-CDAP/RJ. -vandersoncn@yahoo.com.br

Tags: aberta, carvalho, coluna, Sociedade, vanderson

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