Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O lobo

Larissa Acosta*

Eu sou má? perguntava-se, num sussurro íntimo. As palavras ecoavam silenciosamente dentro de sua cabeça.

Lembrava-se de quando era criança e gargalhava das limitações de seus coleguinhas, e de quantas vezes transformou o constrangimento alheio em risadas.

– Por quê? – insistia.

Pensou na força que tinha de fazer para não desejar que as coisas dessem errado para certas pessoas. Força essa resultante do atrito entre o politicamente correto e a selvageria engaiolada nas masmorras de sua alma.

Mas eu ajudo os outros. Tenho carinho por meus amigos e familiares tentava se explicar para si mesma.

Assustava-se com seus próprios argumentos. Seu caráter mais se aproximava de um primitivo instinto animal: prezava verdadeiramente apenas por suas crias, seu bando.

Eu tenho amor ao próximo, sim! – bradava para dentro, como se em algum lugar, no interior de seu corpo, alguém a pudesse ouvir.

Uma vergonha cortante atravessava seu peito: pensava em quantos sorrisos já teve que conter ao presenciar o fracasso de terceiros.

Sentia-se mentalmente perturbada com os traços psicopatas, bipolares e esquizofrênicos que iam se exteriorizando no decorrer de seu monólogo.

– Não é minha culpa. É que algumas pessoas fazem por merecer uns tropeços. – justificou e julgou.

Estava fraca, escassa de poréns e porquês. Sua maldade era fato. Não tinha jeito.

Mas não é somente minha essa maldade. É de todos. Hipócritas aqueles que se dizem bons. – atacou os homens, por serem os lobos de sua própria espécie.

Era mais fácil assim: reduzir-se a uma partícula dessa massa heterogênea que é a humanidade. Não havia a pressão de ser o todo, o sujeito. Acreditar que o mal é intrínseco à raça humana dissolvia a culpa ardente que a consumia.

Sem se importar, abraçou suas frágeis desculpas e seu travesseiro.

– Que mal há em ser mau quando todos o são? Existe o bem, afinal?

Era inútil procurar por bondade neste mundo tão cheio de realidades.

O cansaço a vencia. Imaginando se encontraria o bem dormindo em alguma calçada nas esquinas de seu subconsciente, adormeceu. 

 

* Larissa Acosta é cronista.

Tags: aberta, acosta, coluna, larissa, Sociedade

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.