Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Fora do comum

Tarcisio Padilha Junior*

Pela música, o ouvinte atento é continuamente levado a derivar suas trajetórias e lacunas internas. Ele se vê diante de um poder que suprime a resistência da razão, não dispondo de medida alguma. Em meio aos apelos barulhentos, aos transtornos do dia, das necessidades da vida, é um poder fora do comum.

Um poder que é proximidade amorosa, que conduz a um prazeroso despojamento de nós mesmos. Quando procuramos em nosso entorno o que mais nos anima em meio a uma necessidade, o fundamento sobre o qual pode crescer a serenidade, percebemos com alegria que só poderia ser a música.

A música transmite imediatamente as profundas emoções dos personagens para a alma dos ouvintes. Todo o acontecimento que encerra se comunica ao ouvinte com a máxima inteligibilidade. Ela tem a concisão e a força da linguagem do sentimento, que pode se expressar nas mais sutis modulações.

Com Beethoven, a música começou a descobrir a linguagem do querer apaixonado, dos dramas do interior do homem. Um processo interior, dramático — pois toda paixão segue um curso dramático — ansiava por se expressar em uma nova forma, mas o esquema tradicional da música de humor se opunha.

Após o notável compositor, sentimos que estamos hoje diante de correntes individuais antagônicas, mas também diante de uma corrente mais poderosa que todas as outras e que segue firme em uma única direção: aos poucos notamos que o movimento interno geral se torna tão forte quanto irresistível.

Incompreendido, Beethoven mostrou que a liberdade não cai como milagre no colo de ninguém. Cada um que quer tornar-se livre deve fazê-lo por si mesmo, deve voltar os olhos em busca do futuro.

 

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro. 

Tags: aberta, coluna, Padilha, Sociedade, tarcisio

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