Jornal do Brasil

Sábado, 26 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

As UPPs e a explosão da violência no Rio

Eduardo Papa*

Autoridades parecem ter enterrado no entulho da Perimetral as sábias palavras inscritas em seus pilares pelo profeta: Gentileza gera gentileza". Agora é: “Violência gera violência”

Decorridos os primeiros anos do projeto das UPPs, já é possível fazer uma avaliação de seus resultados. Naquilo que é de interesse do capital e da arrecadação do Estado, eles são amplamente satisfatórios:  a valorização dos imóveis nas comunidades e ruas adjacentes; a formalização de negócios com a exigência de alvarás; a incorporação de consumidores, que antes não pagavam pelos serviços, aos cadastros das distribuidoras de energia e operadoras de TV a cabo e internet banda larga; o livre acesso dos caminhões das distribuidoras de gás etc. É a cidade formal subindo o morro. Já a contrapartida em aumento da oferta de serviços e infraestrutura para as áreas pacificadas não acontece no mesmo ritmo, as novas vagas em creches e escolas, as novas unidades de sade, as obras de saneamento e mobilidade que deveriam acompanhar as UPPs ainda estão no papel. Nas comunidades pacificadas pouca coisa mudou, além da presença permanente e ostensiva da força policial.

Porém, o que coloca em xeque a política de pacificação é o modus operandi da PM. Desde a morte sob tortura do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza na UPP da Rocinha até a explosão de violência no coração de Copacabana, em 22/04, inúmeros casos de violência policial, alguns resultando em fatalidades, foram registrados, e a população tem reagido com fúria, ônibus queimados e barricadas em manifestações espontâneas, que podem ser perigosamente exploradas pelo crime organizado e por milicianos. Apesar dos melhores esforços de suas corregedorias, a polícia não conseguiu mudar o comportamento da tropa, pois o exemplo vem de cima. A violência do soldado nas vielas reflete não seu treinamento na corporação mas a política “higienista” de “limpeza urbana” para os grandes eventos de nossos governantes, bem como sua falta de disposição de negociar com os movimentos sociais e a truculência com que trataram as manifestações populares.

Imagine um soldado que recebeu ordens para bombardear e agredir professores em frente às câmeras de toda a imprensa nacional e internacional, como não vai se comportar em uma abordagem e revista a adolescentes pobres nos becos das favelas? Até que ponto estará disposto a ouvir a argumentação de uma mãe negra e pobre, o soldado que assiste seus chefes tratarem qualquer manifestação de oposição como terrorismo? A política de reorganização do espaço urbano pela progressiva incorporação da cidade ao capital, cuja maior expressão é a política de remoções da prefeitura, que procura expulsar os mais pobres para as periferias mais distantes (para onde muitos migram acompanhados dos bandidos com seus arsenais), traz um subproduto ideológico nefando, a criminalização da pobreza. Uma corrente opinião perversa, com cada vez maior repercussão na imprensa sensacionalista, enfoca de maneira discricionária as pessoas excluídas pela sociedade, impondo-lhes a culpa pelo próprio infortúnio e estigmatizando-as como uma ameaça em potencial.

É essa visão dos nossos governantes que nos condena a sofrer com a violência rondando nossas famílias. Para obter o respeito e apoio da população a força policial devia ter um comportamento ético irretocável e um respeito absoluto aos direitos humanos, pois gentileza gera gentileza. E nossos governantes, deixarem de humilhar e perseguir o povo pobre em benefício de seus apoiadores e parceiros econômicos, pois violência gera violência, como diria o profeta.

 

*Eduardo Paparguerius, mestre em história, é jornalista e artista plástico.

Tags: aberta, coluna, eduardo, paparguerius, Sociedade

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