Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Surpresas previsíveis    

Vitor Sapienza*

Para a maioria dos que atuam no esporte, principalmente o futebol, pareceu estranho o resultado do Campeonato Paulista, onde um time pequeno passou pelos tais gigantes e levou o título de campeão para a cidade de Itu. Para quem não sabe, naquela  cidade “tudo é grande, e foi isso que o time do Ituano conseguiu mostrar, desbancando os milionários clubes do futebol paulista.

A fama do tal gigantismo de Itu se deve ao ator Simplício, que, vestido de caipira em um programa humorístico de televisão, mostrava coisas absurdas que seriam miniaturas em sua cidade; a brincadeira foi adotada pela população e Itu ganhou novos atrativos turísticos, além da fama de ter recebido a Convenção que foi um dos marcos para a Proclamação da República.

História à parte, voltemos ao assunto principal de nosso texto. Prestes a abrirmos a Copa do Mundo da Fifa, temos consciência de que, sem querer, os tais pequenos clubes vão mostrando um pouco a nossa realidade esportiva. A visível falta de talentos vai exigindo novas posturas por parte dos tais técnicos consagrados, e os que não se adaptam a isso caminham para o ostracismo.

Jovens treinadores começam a mostrar trabalho utilizando a matéria-prima que lhes é oferecida e, ao contrário dos famosos e ricos profissionais do setor, vão abrindo espaço nesse seleto mercado de trabalho. E aí cabem as nossas costumeiras perguntinhas: vale a pena pagar altos salários para treinadores consagrados que levam consigo, além da fama, as pesadas exigências de contratações milionárias para conseguirem os títulos? Não seria essa a causa principal da crise financeira que assola praticamente todos os grandes clubes?

Sem grandes talentos para expor na vitrine do nosso futebol, sem incentivo para campeonatos contínuos nas séries abaixo da principal, com os clubes maltratados pelo rigor da Lei Pelé, o quadro é desanimador; e ficará muito pior se o Brasil perder a Copa em casa, em outro “maracanazzo”. Sim, porque se o custo é alto, e o patrocínio é raro e seletivo, que empresas terão coragem de investir em um futebol que já foi o melhor do mundo e que agora vive pendurado na tradição e nada mais?

Tradição. Foi acreditando nela que assistimos ao esfacelamento do nosso futebol, enquanto exportávamos os nossos raros talentos. Agora, ricos e reunidos em um “grupo fechado”, que é a principal característica do técnico de plantão, torcemos para que outro fracasso não marque novamente a história do nosso principal estádio. Torcemos, mas sabemos que a lição do Ituano não será aprendida porque falta humildade no time e nos dirigentes, enquanto sobra ufanismo nas arquibancadas.

Assim, analisando friamente a situação, temos convicção de que confundimos tradição com inércia, e estamos pagando o custo disso. Já o custo da competição, nós pagaremos por muitas e muitas décadas, enquanto a Fifa e as empreiteiras sairão com os cofres abarrotados.

* Vitor Sapienza, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e economista, é agente fiscal de rendas aposentado. - www.vitorsapienza.com.br

Tags: aberta, coluna, sapienza, Sociedade, vitor

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