Jornal do Brasil

Sábado, 1 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Vai ou não ter Copa?

Rodrigo Augusto Prando*

Os últimos meses têm, em nosso país, sido interessantes do ponto de vista social e político. A dinâmica da sociedade, uma sociedade em rede, traz em seu bojo as contradições que são inerentes à cena contemporânea: há excesso de individualismo e, ao mesmo tempo, enorme participação de jovens que deixaram as redes sociais para protestar ocupando as ruas de nossas cidades.

 Desde junho de 2013, as relações entre manifestantes e governos (municipais, estaduais e federal) são tensas, sobretudo no que tange à atuação das polícias que, também, estão aprendendo a lidar com essa nova forma de protestar. As jornadas juninas demonstraram que a política, com sua democracia representativa, não era mais capaz de verbalizar os anseios de parte da população. Os protestos se iniciaram sob a égide do Movimento Passe Livre (MPL), um movimento que não se constitui numa organização com liderança verticalizada, e que se contrapunha ao aumento da tarifa nos transportes públicos na cidade de São Paulo. Houve aumento na quantidade e mudança na qualidade dos protestos. Os governantes vergaram frente à força avassaladora das ruas. As tarifas foram suspensas e os jovens (naquele momento muitos já não eram tão jovens) poderiam se retirar, pois o objetivo havia sido conquistado – até mesmo porque o MPL deixou o palco, satisfeito, por ora, com o resultado.

No entanto, o que se viu foi um adensamento não só das angústias, como, também, das ações dos manifestantes. Não havia uma liderança, uma pauta unificada, uma única organização controlando e dirigindo a massa que tomava as ruas. A Polícia Militar foi acusada de agir com truculência, foi, depois, atacada por ter sido omissa. Há cenas de policiais sendo agredidos, de militares atacando os manifestantes, de policiais sendo aplaudidos pelos manifestantes, enfim, uma ampla gama de situações que, durante semanas, deixou nossa vida cotidiana suspensa. Sociologicamente, sem dúvida, foram semanas de tentativa de compreensão do fenômeno em voga. Intelectuais das mais distintas posições interpretativas buscavam dar suas explicações sobre o que ocorria e acerca das consequências futuras. Busquei, como muitos, interpretar os fatos, obviamente, tendo humildade para explicar que a situação era nova e nossas ferramentas de análise nem sempre davam conta de construir compreensões totalizadoras, ou seja, de serem capazes de relacionar os eventos singulares ao quadro mais geral de nossa sociedade. Num de meus artigos, no qual realizei um balanço do ano de 2013 e fazia um esforço de apontar tendências para 2014, asseverei o seguinte:

“[...] é provável que 2014 seja, ainda, palco contestatório, numa conjugação singular de crítica social e amor ao futebol. Dizem os mais pessimistas que o país terá, no período da competição, vastos problemas, estes já velhos conhecidos de nossa população: mobilidade urbana, infraestrutura aeroportuária, displicência das empresas aéreas, alta de preços, entre outros. Em verdade, não se pode ser pessimista. Basta ser realista! É pouco provável que, num passe de mágica, essas falhas sejam corrigidas nos próximos meses” (artigo enviado aos jornais em janeiro de 2014).

Neste mesmo mês de janeiro, outro fenômeno tomou corpo: os "rolezinhos". Jovens, muitos que acompanhavam a vertente do funk ostentação”, passaram a promover  “rolês” em shoppings da capital paulista, numa ação que gerou enorme repercussão na mídia. Os jovens diziam que queriam zoar, dar uns beijos, tirar fotos e postar nas redes sociais. Novamente, aqui, o meio de divulgação foram as redes sociais. Centenas, milhares, de jovens deixaram consumidores, lojistas e administradores dos shoppings, assustados. Foram poucos os registros de saques ou roubos, contudo, a quantidade e a velocidade dos "rolezinhos" foram causadores de transtornos. Tivemos a contradição entre a liberdade de ir e vir, de expressão, e de direito à propriedade privada. A Justiça concedeu liminares aos shoppings proibindo a realização de "rolezinhos". Os administradores dos shoppings e seguranças foram acusados de preconceito ao impedir que certos tipos de jovens pudessem ou não acessar aqueles locais.

Em síntese, mesmo sendo um fenômeno de curta duração – tão logo as aulas se iniciaram os "rolezinhos" se findaram ele deixou uma forte marca em nossa memória recente. Milhares de jovens que, de repente, corriam nos corredores dos shoppings, cantando, gritando, foram vistos como causadores de enormes transtornos. Em outra perspectiva estão aqueles que formularam o slogan Não vai ter Copa. Se os jovens dos "rolezinhos" não traziam um conteúdo político em suas ações, os que protestam contra a realização da Copa do Mundo tem essa dimensão bem presente em seu discurso, embora, sabidamente, um discurso não organizado e disperso. Os protestos que são realizados nas ruas acabam tendo um acompanhamento, nos últimos realizados, de forte presença policial, inclusive da chamada “tropa do braço”, com policiais versados em artes marciais, que imobilizam os manifestantes e evitam o uso de bombas e balas de borracha. Sabedores dessa nova tática da PM, muitos passaram a ventilar novas formas de manifestação: apropriaram-se dos recentes "rolezinhos". Ao invés de confrontarem a polícia, imaginam o impacto de, por exemplo, fazer "rolezinhos" nos aeroportos e em outros espaços em que circularão não apenas brasileiros mas muitos estrangeiros que virão para o Mundial de Futebol. Há um enorme tabuleiro. O jogo começou, e as peças são, real e virtualmente, movidas. De um lado, os governos e as forças de segurança; do outro, jovens e algumas organizações que se insurgem contra a Copa e que pleiteiam educação, hospitais, transporte público e políticos “padrão Fifa”.

Sobre a pergunta que intitula este escrito  –“Vai ou não ter Copa?” –, a resposta é, para mim, óbvia. Sim, teremos Copa do Mundo. Como ela será? Aí, é outra história. Penso que não será tranquila, que a insatisfação de inúmeros atores sociais volte a tomar as ruas e a promover os "rolezinhos" objetivando conturbar o evento esportivo. Não bastasse o futebol, teremos eleições presidenciais, para governadores e para o Legislativo. O futuro de nossa presidente está, quer se queira ou não, atrelado ao sucesso ou ao fracasso do Brasil no campeonato. Brasil campeão, Dilma reeleita. Brasil derrotado, enormes dificuldades para a reeleição. Se a euforia da vitória pode ajudar o candidato da situação, as agruras da derrota podem trazer à tona muito mais que a derrota dentro do campo. Pode significar a derrota simbólica dos detentores do poder político.

*Rodrigo Augusto Prando, mestre e doutor em sociologia pela Unesp, é professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Sociedade

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