Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

A última Ceia

Siro Darlan *

A via sacra esse ano foi bem diferente. A primeira estação começo com o povo Cristão sendo desalojado pela policia do Cabral/Pezão/Paes, que autorizado por um mandado judicial, desalojou centenas de famílias vítimas da falta de política habitacional de um prédio abandonado há anos por uma concessionária de serviços públicos. As famílias despossuídas de qualquer forma de políticas públicas foram enfim colocadas na rua com muito “tiro, porrada e bombas”.

Na segunda estação foram para a porta da Prefeitura tentar sensibilizar o Prefeito para lhes receber ou mandar algum emissário fazer respeitar o seu direito constitucional a moradia, princípio da dignidade da pessoa humana. Como era quinta feira santa, o Senhor Eduardo Paes lavou as mãos e mandou que sua Guarda Pretoriana baixasse o sarrafo no povo e retirasse de sua porta. Vários de seus “eleitores” saíram feridos, inclusive muitas crianças e adolescentes.

Na terceira estação, pensaram, já que nem o Prefeito, nem o Governador respeitam nossos direitos fundamentais, vamos nos queixar com o Bispo. Alguns ouviram as palavras do Papa Francisco que “As portas das Igrejas devem estar abertas aos sem teto e famintos”, e partiram para a Catedral do Rio de Janeiro. 

Na quarta estação imaginaram, como é sexta feira santa, chegaremos cansados e espancados, chicoteados pela repressão dos poderosos, mas seremos consolados e entraremos triunfantes no templo onde teremos nossos pés lavados e consagrados pelo Pároco da Catedral.

Na quinta estação, caíram novamente decepcionados ao encontrarem as portas da catedral fechadas e as liturgias que tanto procuravam canceladas por medo do povo. Lembraram que talvez o Espírito Santo ainda não tenha chegado para com o seu sopro dar coragem aos discípulos para os receberem. Contudo ficaram em vigília permanente no estacionamento da catedral, até que o Divino Sopro chegou o Cardeal Dom Orani Tempesta convocou o Governador, o Prefeito, a Presidenta do Tribunal de Justiça, o Procurador de Justiça e mais 52 representantes da sociedade civil para compartilhar a busca de soluções para 74 famílias, com 195 pessoas que batiam às portas do Templo Sede da Igreja Católica.

Na sexta estação, caíram o Governador, o Prefeito, a Presidente do Tribunal de Justiça e o Procurador Geral de Justiça, que esquecendo suas responsabilidades sociais não compareceram. Afinal como poderiam perder uma sábado discutindo assuntos tão sem importância. Danem-se os direitos, dane-se o povo. 

Na sétima estação, depois de três horas e meia de intensa discussão entre parlamentares federais e estaduais, membros do clero, representantes da sociedade civil, ou seja, mais de 52 pessoas buscando avidamente uma solução, os representantes do Pezão e do Eduardo Paes, membros do terceiro escalão dos respectivos governos, sem qualquer poder para dar soluções resistiram bravamente a qualquer proposta apresentada. Casa para as famílias, nem pensar, aluguel social depende de mudança na lei. Nenhuma proposta emplacava e em nada se avançou.

Na oitava estação, frustrados e transformados em comissão de estudos partimos para conhecer os “perigosos facínoras” que ameaçavam os palácios governamentais, acusados de estarem sendo manipulados pelas hostes do mal para prejudicar a excelente imagem do Governo. Encontramos no estacionamento da Catedral 97 crianças e adolescentes famintas e muitas delas doentes em razão da exposição às chuvas e falta de abrigos que as protejam; 45 jovens entre 18 e 29 anos; 40 adultos entre 30 e 59 anos e quatro idosos.

Na nona estação constatamos que embora em situação muito precária, estão sendo assistidos e alimentados pela Igreja e por instituições como a Toca de Assis, as irmãs de Madre Teresa de Calcutá e outros religiosos evangélicos e espíritas. Muitos, em sua maioria, são analfabetos, alguns estão inscritos no programa habitacional há mais de oito anos, segundo afirmaram. A maioria das famílias chefiada por mulheres e não há uma liderança formal.

A tentação de criminaliza-los em razão da situação de miséria absoluta é permanente, vez ou outra se houve as perguntas: Quem é o líder? Ou quem está por detrás disso? Ou quem os manipula? Perguntas inúteis e cretinas, além de insensíveis uma vez que o povo sofrido também pode e deve se organizar para reagir a tanta opressão.

Finalmente, na décima e última estação, está na hora da crucificação, e os representantes dos senhores Paes e Pezão sentenciam: ou vão para os abrigos ou ficam onde estão. Não há outra solução. Vem a sugestão, liga para o Governador para ver se ele autoriza uma solução emergencial. Sua representante tenta inutilmente, mas Sua Excelência não atende o chamado.

O povo então segue sepultado, excluído de seus direitos, no estacionamento da Catedral Metropolitana, sob os cuidados dos sacerdotes que não abrem as portas do templo para abriga-los, mas não os abandona dando-lhes assistência espiritual e material. Enquanto isso o povo aguarda que o milagre da ressurreição da cidadania ocorra e eles possam ser libertados da morte pela miséria, pela fome e pela insensibilidade dos governantes que os ignora e massacra.

* Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Coordenador-Rio da Associação Juízes para a Democracia

Tags: aberta, Artigo, darlam, siro, Sociedade

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